Estudo aponta para relação entre uso de maconha e qualidade de vida de usuários

Resultado da pesquisa feita com quase 7.500 pessoas mostra que os não usuários de cannabis relataram mais sintomas de depressão ou ansiedade e menos qualidade de vida do que os usuários ocasionais e habituais da planta. Informações da Unifesp

Via Smoke Buddies

Cannabis sativa (popularmente conhecida como maconha) é a terceira droga recreativa mais usada em todo o mundo (UNODC, 2020). O seu uso é polêmico, seja por recomendação médica ou não. Apesar da popularidade do uso entre os brasileiros, as informações sobre seus usuários frequentes fora de contextos clínicos ainda são escassas (Bastos et al., 2017). Um estudo realizado por um grupo de quatro pesquisadores brasileiros se propôs a lançar um pouco de luz nessa seara.

Os resultados demonstram que os entrevistados tiveram a autopercepção sobre seus padrões de uso de cannabis associados com medidas de ansiedade, depressão, qualidade de vida e o conceito subjetivo de bem-estar, sendo que os melhores escores foram observados entre aqueles que assinalaram uso frequente de cannabis e não perceberam problemas associados com o seu uso. O presente estudo buscou testar a hipótese de que a autopercepção do uso de cannabis é um fator associado ao conceito subjetivo de qualidade de vida e aos desfechos de saúde mental.

Para essa pesquisa, foram entrevistados 6.620 usuários de maconha. 17,1% dos participantes se autoclassificaram como usuários ocasionais, 64,6% como usuários habituais e 7,7% como usuários disfuncionais (indivíduos que usam a cannabis e percebem problemas com o uso). Os participantes eram em sua maioria jovens adultos do sexo masculino, com pelo menos ensino médio, empregados e sem filhos. Os maiores escores de qualidade de vida foram observados entre os usuários habituais de maconha, seguidos dos ocasionais, enquanto tanto os não usuários (785 pessoas) quanto os disfuncionais apresentaram escores menos favoráveis.

As medidas subjetivas de bem-estar foram maiores entre os usuários habituais e ocasionais do que entre os não usuários, enquanto os usuários disfuncionais foram os mais afetados. A baixa qualidade de vida, sintomas de depressão ou de ansiedade foram mais prevalentes entre os usuários disfuncionais, mas os não usuários de cannabis relataram mais sintomas de depressão ou ansiedade e menos qualidade de vida do que os usuários ocasionais e habituais.

“A tradução leiga mais usada para expressão ‘bem-estar subjetivo’ é ‘felicidade’. Por conta das diversas conotações associadas ao termo felicidade, a psicologia tem empregado o bem-estar subjetivo como definição nos estudos sobre satisfação e felicidade”, explica Paulo Rogério Morais, professor do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Rondônia e cujos dados da pesquisa em questão serviram de base para seu doutoramento junto à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sob orientação do professor Dartiu Xavier da Silveira.

Para o orientador, psiquiatra e docente associado ao Departamento de Psiquiatria da Unifesp, o trabalho é importante porque “a grande maioria dos trabalhos científicos publicados sobre drogas se baseia em experiências malsucedidas onde o uso de drogas leva a consequências desastrosas. Mas não é isto o que ocorre com a imensa maioria dos usuários. Nós, pesquisadores, deveríamos parar de estudar unicamente as drogas que as pessoas usam e passarmos a investigar as pessoas que usam drogas. Os resultados são surpreendentes!”.

Segundo Paulo Morais, a ideia para esse estudo surgiu da junção de diferentes observações, mas principalmente a partir da constatação de que, a menos que gere algum problema, o uso regular de drogas é um fenômeno negligenciado pela comunidade científica. Ainda para o pesquisador, relatórios publicados anualmente pelo Escritório das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC) mostram que a maconha é a droga ilícita mais usada no mundo e que a maior parte das pessoas que reportam o uso de drogas ilícitas não apresentam problemas decorrentes desse uso. “No entanto, na literatura médica o uso de drogas é quase sinônimo de problemas, pois as conclusões são geralmente baseadas em amostras tendenciosas [usuários que buscam tratamento]”, complementa Morais.

Para avaliar a qualidade de vida no estudo foi usada a versão abreviada do instrumento desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o WHOQOL-bref. Este instrumento quantifica a percepção que a pessoa tem acerca de sua posição na vida, no contexto da sua cultura, valores, objetivos, expectativas e preocupações relacionados aos aspectos físicos, psicológicos, de relações sociais e de meio-ambiente. Pontuações mais altas indicam melhor qualidade de vida.

Em trecho da publicação no Journal of Psychiatric of Research, os autores destacam que “os resultados obtidos neste estudo são particularmente relevantes porque se referem a uma amostra composta predominantemente por usuários habituais de maconha da população em geral, grupo raramente representado em outras pesquisas”.

“É compreensível que haja mais interesse em conhecer os riscos e agravos associados ao uso de drogas do que estudar os aspectos não clínicos desse uso. No entanto, conhecer as características de pessoas que usam drogas e não vivenciam problemas decorrentes desse uso pode ser um caminho para desenvolver estratégias para a prevenção ou tratamento do uso problemático”, defende Morais.

Mesmo com uma amostra de tamanho considerável, o pesquisador relata que o delineamento do estudo não permite concluir que o uso regular de maconha aumente a qualidade de vida, mas que os resultados apontam para uma relação positiva entre o uso de maconha para fins não médicos e a qualidade de vida dos usuários avaliados, exceto aqueles que percebiam problemas relacionado com o uso. Morais ressalta também que os resultados encontrados não podem ser extrapolados para o conjunto de todos os usuários de maconha do Brasil.

O fato de que o uso de cannabis está geralmente associado a um maior risco de resultados adversos para a saúde não foi observado no estudo. Os dados desta pesquisa foram coletados entre maio de 2015 e dezembro de 2016. A tese de Paulo Rogério Morais foi defendida em setembro de 2019.

Foto em destaque: Dave Coutinho.

Empresa de cannabis medicinal anuncia estudos em parceria com Unifesp, USP e UFPB

Ao todo serão investidos R$ 15 milhões em estudos que avaliarão o canabidiol nos tratamentos da endometriose, doença de Parkinson e transtornos de ansiedade

Fonte: Smoke Buddies

GreenCare, uma das principais empresas no mercado de produtos à base de canabinoides, anuncia investimento de R$ 15 milhões em pesquisa e desenvolvimento. Ao todo, no pipeline da companhia, existem seis estudos em andamento, sendo que um deles está em fase de recrutamento de pacientes pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e dois já receberam aprovação dos respectivos comitês de ética das Faculdades de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Os outros três estudos devem ser anunciados em 2022.

“A geração de evidências faz parte de nossa estratégia de nos posicionarmos como uma indústria farmacêutica tradicional, cujo foco é a educação médica por meio de informações baseadas na ciência e na oferta de produtos de qualidade”, afirma Martim Mattos, CEO da GreenCare. No final de fevereiro deste ano, a empresa anunciou um aporte de R$ 40 milhões para ampliação de sua equipe de consultores, investimentos em pesquisas e aquisição de uma fábrica.

O estudo da Unifesp será coordenado pelo ginecologista e presidente da Sociedade Brasileira de Endometriose, Eduardo Schor, e conduzido pela Dra. Thaís Marquesi Federico, também vinculada à Unifesp, e avaliará o canabidiol (CBD) como mais uma opção na busca de melhora da qualidade de vida das mulheres que sofrem com dor devido à endometriose.

“Aguardamos com grande expectativa por bons resultados. Vários estudos que utilizaram canabidiol no tratamento de síndromes dolorosas se mostraram efetivos. Como o mecanismo da dor na endometriose é semelhante, ou seja, é uma dor neuropática, a possibilidade de sucesso é bastante promissora”, avalia Schor, que também é professor na instituição de ensino.

Os tratamentos farmacológicos tradicionais se concentraram em terapias hormonais, focados na diminuição do estrogênio circulante que alimenta o processo inflamatório, visando diminuir a dor causada pelas lesões endometriais ectópicas. Essa abordagem pode controlar a extensão da doença, mas geralmente falha numa solução duradoura para a dor pélvica associada.

Opções alternativas para o manejo da dor e melhora da qualidade de vida destas pacientes têm sido discutidas pela comunidade científica em todo o mundo. A pesquisa da Unifesp em parceria com a GreenCare abre uma nova possibilidade de tratamento cujas expectativas são bastante elevadas por parte da comunidade científica. Diferentes estudos nacionais e internacionais confirmam a eficácia do canabidiol no tratamento de diversos tipos e origens da dor.

Já o estudo da GreenCare em parceria com a USP tem como foco avaliar a eficácia e segurança do uso oral de um extrato purificado de cannabis no tratamento dos sintomas não motores da doença de Parkinson, com ênfase na dor.

Na UFPB, a parceria com a GreenCare se dará por meio de estudo para avaliar a eficácia do CBD para os transtornos de ansiedade, assim como verificar o papel do canabinoide no manejo do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), visto sua grande prevalência e projeção decorrente da pandemia de Covid-19, e no tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

Para Helena Joaquim, medical affairs da GreenCare, a importância desta iniciativa é contribuir com evidências científicas que possam se traduzir em benefício para uma população que não encontra solução nos tratamentos mais usuais. “É mais uma iniciativa da GreenCare para gerar evidências cientificas robustas que possam contribuir com a evolução da ciência e no uso de canabidiol na medicina”, explica. “Não estamos propondo a substituição de um medicamento (ou abordagem terapêutica) pelo canabidiol, mas sim investigando uma ferramenta a mais para que esses médicos possam acrescentar na sua prática clínica”.

Foto em destaque: Rafael Rocha | Smoke Buddies.

Neurocientista desvenda cinco mitos comuns sobre cannabis e saúde

Pesquisador do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), o doutor em neurologia Renato Filev explica cinco afirmações incorretas frequentemente associadas à maconha e saúde

Fonte Smoke Buddies

Você já deve ter ouvido que maconha mata neurônios. Ou ainda, que causa esquizofrenia. Possivelmente, já acreditou que o uso de cannabis leva ao consumo de outras drogas, ou que o THC só “dá onda” e não possui propriedades terapêuticas.

Mitos comuns relacionados à cannabis e saúde, sem respaldo em comprovações científicas, são fruto do contexto proibicionista brasileiro, que restringe o desenvolvimento de pesquisas e atrapalha a construção coletiva do saber empírico sobre a planta.

Por sorte, profissionais como o neurocientista Renato Filev, pós-doutorando no Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Unifesp, se dedicam a encarar o desafio de pesquisar maconha no Brasil, derrubar mitos baseados na ignorância e estabelecer novos parâmetros para a relação entre cannabis e saúde. Professor em um módulo do curso on-line da Open Green, Dr. Filev desvenda cinco grandes mitos sobre cannabis e saúde. Confira a seguir.

1. A cannabis mata neurônios.

“O que se tem de evidência mais conclusiva nesse caso é justamente o contrário, que a cânabis e seus derivados, componentes, apresentam uma função de neuroproteção — eles protegem as células nervosas de dano, evitando uma excitabilidade tóxica nessas células, e que elas acabem morrendo. Os canabinoides atenuam a atividade do sistema nervoso central, isso permite o fator protetor. Além disso, os canabinoides são capazes de modular a resposta imunológica, têm efeito antioxidante e protegem de uma morte celular programada, apoptose. Todas essas características reunidas demonstram o efeito neuroprotetor dos canabinoides, não o contrário”.

2. O uso terapêutico da cannabis é indicado apenas para doenças raras.

“Os canabinoides têm sido usados para o tratamento de algumas doenças graves, mas não raras. Dor neuropática, dor crônica, câncer, epilepsia são doenças relativamente comuns. Embora existam algumas síndromes genéticas, ou esclerose múltipla, que não são doenças de grande prevalência na população, sobre as quais a cânabis também é capaz de apresentar efeitos terapêuticos desejáveis. Além disso, proporciona melhora no quadro geral da reabilitação: melhora no apetite, no sono, no humor, no bem-estar e, consequentemente, na qualidade de vida em geral. São parâmetros importantes para a reabilitação de diversas enfermidades”.

3. CBD é bom, THC é ruim.

“O CBD e o THC têm uma relação por vezes antagônica. Os efeitos de um aparentemente são contrários ao do outro, embora o THC apresente um efeito paradoxal: em baixas doses apresenta efeito mais semelhante ao CBD, em altas doses apresenta um efeito oposto ao CBD. Inclusive, quando são usados associados, o CBD tem por característica prevenir alguns dos efeitos adversos proporcionados pelo THC, como aumento da ansiedade, paranoia, taquicardia e psicose.

O CBD apresenta efeitos colaterais em menor intensidade e menor gravidade que o THC. No entanto, pelas características do sistema endocanabinoide serem personalizadas, singulares em cada indivíduo, alguns apresentam melhora, redução de sintomas, com o uso do CBD, enquanto outros demandam pelo THC. Além disso, o THC também apresenta propriedades terapêuticas, como relaxante, para aumento do apetite, é redutor de náusea, analgésico.

Então, há uma série de propriedades terapêuticas tanto vinculadas ao CBD quanto ao THC, com essa questão dos eventos adversos que são mais frequentes com o uso do THC, sobretudo em doses elevadas”.

4. A maconha causa esquizofrenia.

“A esquizofrenia é uma doença multifatorial, está associada a uma herança genética bastante relevante. No entanto, quimiovariedades da cânabis que apresentam altos teores de THC ou se o indivíduo consome um preparado com altos teores de THC, isso pode ser um gatilho para um evento, um surto psicótico. E este surto psicótico, em um indivíduo predisposto ao aparecimento de uma enfermidade crônica, pode ser o fator desencadeador da enfermidade. O THC pode ser um fator disparador, mas não é um fator causador. Existem outros fatores que podem ser disparadores: um trauma, um acidente, um luto, o uso de bebidas destiladas, o uso de psicoestimulantes também podem deflagrar um surto psicótico”.

5. A maconha induz ao uso de outras substâncias ilícitas.

“Essa questão está relacionada sobretudo com a venda da substância em locais onde se vende outras substâncias ilícitas. A porta de entrada está mais ligada à proibição da cânabis do que por conta dos seus efeitos farmacológicos. Embora a cânabis atue na via de recompensa, na via mesolímbica, que proporciona motivação ao consumo, outras substâncias também acessam essa via, como o tabaco, como alguns medicamentos, como o álcool. Então, em tese, essas substâncias também seriam portas de entrada para outras substâncias. No entanto, a ligação da cânabis com substâncias em tese potencialmente mais danosas está muito mais ligada à regulação social que a cânabis é colocada do que com seus efeitos farmacológicos”.

Aulas abertas

Entre os dias 24 e 27 de novembro, como parte das ações da Green Week, Renato Filev e outros professores do curso “Cannabis: Habeas Corpus e outras medidas judiciais” realizarão aulas abertas, e ao vivo, com transmissão pelo Instagram da Smoke Buddies. A live com o neurocientista fecha a programação, às 20h de sexta, 27 de novembro.

A programação completa será divulgada nos próximos dias no perfil da Smoke Buddies.

Imagem de capa: THCamera Cannabis Art.