Terpenos: o que são e como usá-los na culinária cannábica?

Os terpenos são compostos aromáticos produzidos naturalmente, são eles que criam o perfume característico de muitas plantas, como a maconha, o pinho e a lavanda

Da mesma maneira que em outras plantas e flores de cheiro forte, o desenvolvimento de terpenos na cannabis começou para fins adaptativos. Sua principal função é proteger a planta dos herbívoros e também atrair insetos polinizadores.

Os terpenos estão presentes em toda a planta: folhas, frutas e flores, caules, galhos e também nas raízes.
Existem muitos fatores que influenciam o desenvolvimento de terpenos de uma planta, incluindo clima, tempo, idade e maturação, fertilizantes, tipo de solo e até mesmo a hora do dia. A fragrância da maioria das plantas é devida a uma combinação de terpenos.

De maneira geral, do ponto de vista da planta, os terpenos fornecem proteção natural contra bactérias, fungos, insetos e outras ameaças ambientais. Já do nosso ponto de vista de humanos, os terpenos têm efeitos benéficos para a saúde, tanto na cannabis como em outras plantas.

Já foram identificados mais de 140 terpenos na cannabis. Além de dar a cada variedade de maconha seu aroma e sabor únicos, esses hidrocarbonetos orgânicos também têm um papel determinante em como uma determinada variedade faz você se sentir, assim como nas características terapêuticas da planta.

Os terpenos interagem com os canabinoides* e são essenciais para o que os cientistas chamam de “efeito comitiva”, que significa nada mais do que todos os componentes atuando conjuntamente para potencializar os efeitos medicamentosos da planta.

Isso significa essencialmente que a soma das partes da planta de cannabis é maior do que qualquer canabinoide isolado ou terpeno. O poder do efeito comitiva é uma das razões pelas quais eu sempre prefiro as infusões full spectrum, ou seja, feita com todos os componentes da maconha. É assim que faço meu óleo, manteiga, extrato e também tópicos.

Leia mais: Como calcular a dosagem dos comestíveis cannábicos?

Ainda temos muito a aprender sobre como os terpenos e os canabinoides interagem para fornecer benefícios médicos. As pesquisas sobre cannabis e terpenos progridem cada vez mais, por isso elas estão mudando muito aquilo que costumávamos pensar sobre a maconha.

Tradicionalmente, costumava-se classificar a cannabis em grandes categorias de indica, sativa e híbrida. E era comum dizer que as indicas eram melhores para relaxar e dormir, enquanto as sativas eram mais enérgicas e criativas.

Mas a ciência e a pesquisa descobriram agora que os perfis de canabinoides e terpenos de qualquer variedade são o que realmente causa seus efeitos e também são melhores indicadores do que esperar de uma determinada variedade. Cada uma tem uma combinação única de terpenos e canabinoides, além dos compostos chamados flavonoides. Isso é, se você deseja aliviar os sintomas da depressão, reduzir a inflamação ou aumentar o fluxo de ar para os pulmões, deve procurar a variedade cujos terpenos tenham essas propriedades.

Ao escolher qual maconha cultivar, é fundamental entender as propriedades dos terpenos para a saúde, para que você possa selecionar uma variedade que atenda às suas necessidades. Aqui abaixo estão alguns exemplos de condições comuns e que tipo de terpenos são mais indicados:

Neurodegeneração: linalol
Tratamento da insônia: mirceno e linalol
Reduzir o inchaço: humuleno, limoneno, linalol e mirceno
Reduzir a ansiedade: limoneno e linalol
Controle da dor: mirceno, limoneno e linalol

É tudo meticuloso e científico e muitos especialistas preveem que este é o futuro do uso medicinal da maconha, pois não apenas podem ser feitas misturas para tratar sintomas específicos, como podem ser produzidos exatamente os mesmos resultados, lote após lote.

Muitos, se não a maioria, dos terpenos que você obtém nos óleos e concentrados são, na verdade, extratos botânicos de diversas plantas, e não de cannabis. Por quê? Por que são muito mais baratos de produzir. Mas independentemente de qual espécie de planta os terpenos se originam, eles ainda carregam os mesmos aromas e propriedades médicas, isso é, são exatamente a mesma molécula.

Os aromas e sabores da cannabis na culinária podem ser uma ajuda ou um obstáculo. Na maioria dos casos, os cozinheiros tentam torná-los menos proeminentes, pois a maioria das pessoas realmente não gosta do sabor da cannabis herbal em sua comida.

Os chefs usam há muito tempo terpenos derivados de outras plantas, na forma de óleos essenciais comestíveis, por seus sabores intensos, mas totalmente naturais. Da mesma forma, era natural que os profissionais da culinária entrando na arena da cannabis tirassem proveito desses compostos importantes na planta da cannabis também.
Aqui é importante fazer um alerta, nem todo o óleo essencial ou terpeno isolado é comestível, então tenha cuidado na escolha quando desejar fazer essa complementação nas receitas. Mas você pode tranquilamente harmonizar seu comestível com outras ervas, temperos e frutas, fazendo assim uma complementação 100% natural.

Veja também: Você sabe as principais diferenças entre fumar e comer maconha?

Antes o principal objetivo de fazer comestíveis costumava ser esconder o sabor da cannabis. Agora, chefs inovadores estão fazendo exatamente o oposto e incorporando a planta em suas receitas, escolhendo cuidadosamente variedades com base em seus terpenos dominantes. Isso eleva o papel da cannabis nos alimentos, além de servir como veículo para transportar uma dose medicamentosa para o mundo da alta gastronomia.

Essa filosofia considera a maconha como ingrediente de sabor, além de seus efeitos medicinais ou psicoativos. Por exemplo, uma variedade de maconha rica em alfa-pineno pode ser combinada em um prato temperado com alecrim, uma erva que também é rica neste terpeno. Ou um prato de manga pode ser combinado com uma variedade de maconha que é rica em mirceno, já que ambos compartilham este terpeno.

Por esta razão, para obter o máximo benefício e sabor dos seus comestíveis cannábicos, use e abuse dos terpenos! Lembre-se de que quanto mais cheiro, maior é a potência.

Aqui dei um exemplo de uma receita que fiz usando óleos essenciais. Nesse outro post, eu preparei um infográfico sobre os principais canabinoides.

Foto em destaque: Divulgação | Lilica 420.

Agência Mundial Antidoping anuncia que vai rever a cannabis como substância proibida

A WADA não mencionou no comunicado especificamente o caso da velocista americana Sha’Carri Richardson, eliminada dos Jogos de Tóquio após testar positivo para cannabis, mas observou que a decisão de revisar o lugar da planta em sua lista proibida seguiu solicitações de uma série de partes interessadas. Informações do USA Today

Via Smoke Buddies

A Agência Mundial Antidoping (WADA) anunciou nessa terça-feira que instruirá um painel consultivo para revisar se a cannabis deve permanecer em sua lista de substâncias proibidas após 2022.

O anúncio veio cerca de três meses após a estrela velocista dos EUA Sha’Carri Richardson ter testado positivo para maconha nos testes olímpicos deste verão, desqualificando seu primeiro lugar nos 100 metros rasos e efetivamente eliminando-a da Olimpíada de Tóquio. A maconha e outros produtos de cannabis contendo grandes quantidades de THC são atualmente proibidos durante a competição sob as regras internacionais antidoping.

A WADA não mencionou especificamente o caso de Richardson em seu anúncio na terça-feira, mas observou que a decisão de revisar o lugar da maconha em sua lista de substâncias proibidas seguiu “solicitações de uma série de partes interessadas” para fazê-lo.

Enquanto isso, a maconha continuará sendo uma substância proibida pelo menos até o final de 2022, disse a Wada. A lista de substâncias proibidas para 2023 será finalizada no próximo outono.

A maconha foi proibida há muito tempo pela Wada junto com os esteroides tradicionais para melhorar o desempenho, como o estanozolol e a nandrolona, ​​embora agora seja legal em 18 estados americanos — incluindo Oregon, onde Richardson disse que ingeriu a droga no início deste verão. A agência antidoping não especifica por que a maconha, ou qualquer outra substância específica, é proibida, mas diz que tais substâncias devem atender a dois de três critérios:

  • Aumenta, ou pode potencialmente melhorar, o desempenho de um atleta.
  • Pode representar um risco para a saúde dos atletas.
  • “Violar o espírito do esporte”.

Na esteira da suspensão de Richardson, alguns especialistas criticaram a posição da maconha na lista. Roger Pielke Jr., professor da Universidade do Colorado que estuda governança esportiva, descreveu os esforços para regulamentar a maconha como um exagero.

“O que quer que se pense sobre drogas recreativas, qual é o negócio da WADA em regulá-las, visto que temos jurisdições em todo o mundo que têm estruturas legais para fazer exatamente isso?”, Pielke disse ao USA TODAY Sports no início de julho.

“Muita atenção que poderia ser dada à regulamentação das drogas de doping reais é gasta na regulamentação dessas drogas de moralidade”.

Richardson, 21, havia se transformado em uma das estrelas mais brilhantes do Time dos EUA antes que surgissem notícias de seu teste positivo, que resultou em uma suspensão mínima de 30 dias sob o código antidoping da Wada. O momento e a duração da suspensão a impediram de competir em Tóquio.

Richardson disse mais tarde em uma aparição no programa “Today” da NBC que ela ingeriu maconha depois de saber que sua mãe biológica havia morrido.

“Quero assumir a responsabilidade por minhas ações”, disse ela. “Eu sei o que fiz. Eu sei o que devo fazer. Eu sei o que não posso fazer, e ainda tomei essa decisão.”

Imagem de capa: Pexels | Kindel Media.

Como calcular a dosagem dos comestíveis cannábicos?

Saber dosar faz parte da redução de danos na hora do consumo de uma receita com maconha

“Ninguém nunca morreu de overdose de cannabis” é uma frase que sempre repito para meus alunos e todas as pessoas interessadas em aprender sobre culinária cannábica. Mas, logo na sequência, faço o alerta de que os efeitos de um consumo exagerado podem ser bastante desagradáveis, principalmente pra pessoas que nunca tenham tido contato com maconha na vida.

Aposto que você já deve ter escutado alguma história de alguém que comeu alguma comida cannábica e a onda bateu muito forte, algumas pessoas inclusive sentem as “bad trips”. Espero que nunca tenha passado por essa experiência, porque de fato esses relatos são mais comuns do que se imagina.

Mas não precisa se preocupar, essa situação não tem relação com a forma de consumo, mas sim com a quantidade consumida. Quando falamos de cannabis, a maneira mais fácil de ultrapassar a dosagem é através dos comestíveis. Já que os efeitos demoram a aparecer, as pessoas acham que não bateu e aí acabam ingerindo mais.

Ou então, quando você até sabe que a infusão está potente, mas a comida está tão gostosa que não consegue parar de comer… E aí, quando a onda bate, pode ser tarde demais, e a ingestão já pode ter sido exagerada.

Por isso precisamos começar aos poucos e ir aumentando a dose gradativamente. Até que um dia você consiga determinar qual é a dosagem ideal para você. Inclusive, também sempre gosto de lembrar que as pessoas reagem de forma diferente à maconha, têm metabolismos diferentes… Então, a minha dose jamais será a mesma de uma pessoa que fumou algumas vezes só ou de alguém que nunca tenha fumado.

Os principais sintomas de sobredose do consumo de cannabis podem ser: taquicardia, boca seca, lentidão, sonolência e, em casos extremos, crises de ansiedade.

O melhor antídoto para isso é se distrair, lembrando sempre que os efeitos em breve vão sumir. Caso tenha exagerado no consumo, beba água, faça um exercício leve, leia um livro, converse com um amigo, assista a um filme ou então vá se deitar e tentar dormir, tendo a certeza de que no dia seguinte não vai acordar com ressaca alguma.

Mas afinal, por que é tão complicado determinar a dosagem ideal de um comestível cannábico?

Por que a potência do comestível depende diretamente da potência da erva utilizada antes da descarboxilação. Diferentes cepas possuem diferentes concentrações de canabinoides. E até a mesma “strain” (genética) cultivada em condições e ambientes diferentes pode ter potências distintas.

Além disso, outro fator importante são as condições gerais de saúde de cada pessoa. A forma como eu me alimentei durante o dia, como estou consumindo e a minha tolerância também interferem na determinação da dosagem ideal. Vou dar um exemplo: se eu não consegui comer nada no dia e faço a primeira refeição cannábica, a onda vai bater muito mais intensamente do que se eu tivesse me alimentado.

Então, a minha maior dica quando o assunto é dosagem é: comece devagar, seja paciente e vá aumentando a dosagem progressivamente. Lembre-se que os efeitos dos comestíveis demoram em média de 30 minutos a 2 horas para começar a aparecer.

Cada pessoa reage à maconha de uma forma diferente. Basta observar uma roda de fumo, onde alguns ficam muito falantes, outros introspectivos, outros com muita larica, outros ansiosos e neuróticos. Uma pessoa que nunca ingeriu maconha deve começar com uma dosagem mínima de 2,5 mg diários e ir aos poucos incrementando a dose até atingir os resultados desejados.

Eu montei uma ferramenta pra ajudar você a calcular a concentração de THC usada nas receitas, é a calculadora de dosagem. Acesse gratuitamente clicando aqui.

Nessa calculadora, é possível determinar a dose de cada uma das porções que você vai preparar, considerando a potência da erva utilizada para fazer a infusão e a quantidade de infusão usada no preparo da receita. E nunca se esqueça de que não existe ninguém melhor do que você para definir a dose, levando em conta as suas experiências pessoais. Eu sei que tem gente que às vezes quer ir na onda e provar um ponto, mostrar que aguenta… Não se deve fazer isso na culinária cannábica, justamente por que a ideia dessa forma de consumo é trazer experiências incríveis e positivamente memoráveis.

Agora que você já sabe como calcular a potência dos teus comestíveis, eu quero ver teus preparos. Poste as fotos e vídeos marcando o @lilica.420. No meu canal do Youtube você encontra o vídeo onde eu explico um pouco mais sobre a dosagem dos comestíveis. Já aproveita pra assistir e também fazer a sua inscrição:

Saiba mais: Como colocar maconha na alimentação?

Imagem de capa: Lilica 420.

Liminar para cultivo de maconha com fins terapêuticos é confirmada no Paraná

Mulher portadora de fibromialgia pode plantar e extrair o óleo sem sofrer coerção policial ou sanções penais; salvo-conduto foi concedido em julho. As informações são da ConJur

Via Smoke Buddies

Com base no direito à saúde, a 4ª Turma Recursal dos Juizados Especiais do Tribunal de Justiça do Paraná autorizou uma mulher com fibromialgia a cultivar cannabis em sua casa, para uso medicinal.

A permissão já havia sido concedida no último mês de julho por meio de liminar. Agora, a decisão foi confirmada pelo colegiado. A autora poderá cultivar e extrair o óleo da planta em casa sem sofrer apreensões policiais ou sanções penais.

A fibromialgia é uma síndrome reumatológica que causa dor e fraqueza muscular generalizada. Após tentativas frustradas de tratamento com diversos medicamentos, houve recomendação médica para o uso da cannabis.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a importação da planta, mas a paciente afirmou que não teria condições de arcar com o alto custo. Representada pelo advogado Murilo Meneguello Nicolau, ela pediu salvo-conduto para o cultivo.

Fundamentação

O juiz relator Ademar Sternaldt ressaltou que as “propriedades terapêuticas do canabidiol vêm sendo exaustivamente comprovadas nos últimos anos”.

Ele também lembrou que a Anvisa já aprovou o uso de cannabis em certos medicamentos e reduziu a burocracia para a importação excepcional, mas ainda não regulamentou o cultivo domiciliar. “Referida lacuna na regulamentação acaba se tornando um obstáculo”, indicou.

De acordo com o magistrado, “não se pode obstar o tratamento que se mostrou mais eficiente para amenizar sofrimento físico e psicológico da paciente, ante a supremacia do interesse à vida”.

Sternaldt ainda destacou que a melhora do quadro da paciente a partir do tratamento com canabidiol reduz as chances de ela precisar de atendimento no SUS, o que sobrecarregaria ainda mais a saúde pública.

Por fim, ele citou decisões semelhantes do próprio TJPR, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região e do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. O processo tramita sob segredo de Justiça.

Leia mais: Uruguai estuda venda de maconha para turistas e aumento do teor de THC

Uruguai estuda venda de maconha para turistas e aumento do teor de THC

Seguindo o objetivo da lei que regulamentou a cannabis de retirar os consumidores do mercado ilícito, a Junta Nacional de Drogas estuda medidas como o autorizar acesso legal por estrangeiros e aumentar a porcentagem de THC da maconha vendida nas farmácias

Fonte: Smoke Buddies

Enquanto aqui no Brasil, ainda engatinhamos rumo à regulação dos usos medicinal e industrial da maconha, excluindo outros usos como o adulto e religioso, bem como o autocultivo, sem nenhuma intenção por parte do governo de enfrentar o problema do tráfico de drogas, nosso país hermano segue dando o exemplo de como se faz uma política pública de drogas eficaz — para evoluir ainda mais no cumprimento do objetivo primordial de enfraquecer o narcotráfico, o governo uruguaio analisa duas importantes medidas no âmbito da lei de regulação e controle da cannabis.

A primeira delas é a permissão da venda de cannabis para estrangeiros.

Durante encontro realizado na última semana, autoridades que compõem a Junta Nacional de Drogas (JND) do Uruguai debateram sobre as possibilidades do país permitir a venda de cannabis para turistas, com o governo uruguaio dando sinais de que irá colaborar para o andamento da pauta.

Conforme informou o la diaria, os membros da JND tratam de duas possibilidades legais para a questão do acesso à maconha por estrangeiros. Uma seria modificar o decreto regulatório da lei de regulação do mercado de cannabis, segundo o qual o acesso pode ser dar por meio de farmácias, cultivo pessoal ou clubes canábicos, mas apenas para cidadãos uruguaios ou residentes permanentes no país; a outra seria promover uma nova lei que trate exclusivamente da venda de maconha para estrangeiros.

Outro ponto levantado pelos integrantes da Junta é como os turistas terão acesso à planta. Assim como os uruguaios, os estrangeiros terão que se registrar? Ou seria o caso de suspender o registro de todos os consumidores?

Hoje, apenas as pessoas registradas podem comprar maconha. Então, o que fazemos com os turistas? Eles têm que se registrar ou não? Ou elevamos o registro de todos? Dependendo da solução, será a hierarquia da norma que deverá ser modificada, pois o registro está previsto na lei e as demais não”, explicou o secretário-geral da Secretaria Nacional de Drogas, Daniel Radío, ao El Obervador.

Muitas questões ainda precisam ser debatidas sobre essa pauta, como, por exemplo, onde a maconha seria vendida para os turistas. A JND não trata apenas da possibilidade de farmácias — que é o local onde uruguaios e residentes podem comprar a cannabis produzida pelo estado — mas também leva em conta a adição de novos pontos de venda e, quiçá, a permissão para os clubes canábicos comercializarem sua produção.

“Não deve ser visto tanto do lado que é um incentivo aos turistas a virem fumar, mas do lado que quando os turistas vêm consomem a mesma, então, não tendo acesso à farmácia, vão ao mercado ilícito”, segundo Oscar González, gerente geral da Symbiosis, uma das três empresas autorizadas a produzir cannabis para uso adulto e a única que abastece as farmácias uruguaias.

O empresário argumenta que permitir que os turistas tenham acesso à maconha no Uruguai seguiria na mesma direção em que foi criada a lei de regulamentação e controle da cannabis, que é “ter um produto controlado e combater o tráfico de drogas”.

Sobre a discussão sobre a venda de maconha para turistas, Radío disse que “em alguns anos vai parecer lamentável ter esses dilemas e vai parecer normal uma pessoa viajar para outro lugar e usar cannabis sem ter que andar se escondendo”. Os membros da JND se reunirão novamente em duas semanas.

THC para reter o mercado

Para atingir plenamente o objetivo da lei promulgada em 2013 pelo governo José Mujica, que compreende mover os consumidores de cannabis do tráfico ilegal para o mercado regulamentado, a JND resolveu autorizar a venda de uma variedade de maconha com teor de 10% de THC (tetraidrocanabinol) nas farmácias.

Em entrevista coletiva nessa segunda (30), Daniel Radío disse que, enquanto a maconha cultivada e consumida nos clubes canábicos possui teor de THC superior a 20%, a JND permitiu que “uma variedade com em torno de 10% de THC seja comercializada em farmácias”. Atualmente, as variedades dispensadas nas farmácias possuem uma concentração de até 9% de THC e de 3% ou mais de CBD (canabidiol).

De acordo com o Diario El Pueblo, as plantas com maior percentual de THC já estão sendo cultivadas para que seus “cogollos” (inflorescências) sejam comercializados nos próximos meses.“Será para tentar recuperar o mercado ou reter o mercado que temos atualmente”, explicou Radío.

O preço atual de varejo da embalagem de cannabis para uso adulto com cinco gramas de inflorescências é de 370 pesos uruguaios (cerca de R$ 45), segundo o IRCCA.

A venda de maconha para uso social nas farmácias uruguaias teve início em 19 de julho de 2017 e hoje mais de 45,5 mil consumidores adultos estão registrados junto ao Ircca como adquirentes em uma rede de 18 farmácias aderidas ao sistema. Nas outras duas vias de acesso legal à cannabis de uso adulto, 12.694 (cultivo doméstico) e 5.935 (membros de clubes) pessoas estão cadastradas, conforme a última atualização (22/7/2021) da agência reguladora.

Leia também: Congresso do Panamá aprova projeto de lei sobre maconha medicinal

Imagem em destaque: Pablo Albarenga.

Óleo de cannabis melhora bem-estar de pacientes com doenças como demência e fibromialgia

Canabinoides extraídos da maconha possibilitam uma melhora significativa no tratamento de diversas patologias. Saiba mais na reportagem do Correio do Estado

Via Smoke Buddies

Cercado de tabus, o uso do canabidiol como medicamento no tratamento de inúmeras doenças tem crescido no Brasil, inclusive em Mato Grosso do Sul. A substância extraída da planta cannabis, popularmente conhecida como maconha, possibilita uma melhora significativa no tratamento de patologias como Parkinson, Alzheimer, autismo, epilepsia e esclerose múltipla.

Foi graças ao óleo de canabidiol que o músico Francisco Saturnino Lacerda Filho, do Grupo Acaba, conhecido como Chico, teve alguns momentos de tranquilidade ao lado da família antes da demência mista, vascular com parkinsoniana, atingi-lo novamente. “Começamos a usar o óleo há quatro meses, quando meu pai começou a entrar na fase grave da demência. Ele tem demência mista, vascular com parkinsoniana. Os remédios não estavam mais segurando a doença e nem fazendo o efeito desejado”, explica a filha de Francisco, Carina Cury Lacerda. “Até chegarmos na gota ideal demorou cerca de 15 dias, e logo começamos a ver melhora. De um quadro catatônico, ele passou a sorrir, ter interações, mesmo que sem sentido e muitas vezes delirantes, relembrar hábitos antigos, ter as próprias vontades e fazer sinapses cerebrais”, detalha.

Aos 76 anos, Francisco agora luta novamente contra a doença, que evoluiu rapidamente no último mês. “Hoje ele se encontra em outro quadro, está entrando na fase grave da doença, com infecção e outros problemas intestinais. Convivemos com os problemas da doença e do corpo fragilizado, porém, o que o óleo de canabidiol nos trouxe e nos traz são momentos de alegria e de prazer, tanto para nós familiares quanto para o paciente”, conta a filha.

Carina conseguiu adquirir o óleo por meio do trabalho realizado pela Associação Sul-Mato-Grossense de Pesquisa e Apoio à Cannabis Medicinal Divina Flor, que viabiliza a substância a pacientes de MS. Segundo um dos diretores da associação, Alexander Onça, a ideia de criar a iniciativa surgiu em 2019, quando ele e uma amiga, a também diretora Jéssica Luana Camargo, receberam a prescrição médica para o uso do canabidiol. “Nós dois somos pacientes, eu sou portador de síndrome de Tourette, descobri há 4 anos, e meu neurologista prescreveu o óleo. Nós percebemos como era difícil e caro importar, o custo do óleo é, em média, de R$ 2.500 na farmácia”, relata.

Depois de várias tentativas de adquirir o produto, os dois descobriram que existiam diversas associações do gênero no Brasil e participaram de um curso em São Paulo para aumentar o conhecimento sobre o tema. “Isso foi em 2019. A gente fez um curso pela Sociedade Brasileira de Estudo da Cannabis Sativa, formada por médicos, psiquiatras, neurologistas, pessoas bem sérias e dentro da prefeitura de São Paulo. Foi bem avançado, e descobrimos vários médicos que nos apoiam aqui. Por meio da associação, a gente consegue os óleos para os pacientes com um custo menor, dependendo da dosagem. Cerca de 20% também são para doação gratuita, ou seja, pessoas que recebem gratuitamente o óleo quando não têm condições de arcar com os custos”, ressalta.

Por enquanto, a associação luta pelo direito de cultivar a planta em Mato Grosso do Sul. “Nossa autorização está transitando na Justiça Federal, no nome da associação, além disso, auxiliamos os pacientes a conseguirem o medicamento em outras associações”, esclarece. Para Carina, o óleo fez a diferença na vida da família nos últimos meses. “Desejo que todos que tenham o mesmo problema, ou outros, como autistas, pacientes oncológicos etc., possam ter a oportunidade de fazer o uso do óleo”, frisa.

Quem também viu benefícios foi Fabiana Rodrigues, 36 anos, mãe da pequena Lara Gabriel de Souza Rodrigues, de apenas cinco anos, que tem paralisia cerebral e epilepsia de difícil controle. “Ela já toma há quase dois anos e mudou muito, os espasmos que ela tinha com grande frequência diminuíram. Faz um ano que eu comecei a adquirir o óleo pela associação, antigamente comprava de outro lugar que tinha um preço bem mais caro. O pessoal da associação me deu um suporte bem grande em vista do que eu pagava antes”, pontua.

Ciência

Os avanços no uso do canabidiol no Brasil são amparados pela ciência e por médicos, que têm prescrito mais a substância.

No entanto, segundo a médica neurocirurgiã Patrícia Montagner, nem sempre foi assim. “Eu me formei, fiz minha especialização médica e nunca tive acesso a esse conhecimento na academia, nunca ouvi falar no sistema endocanabinoide, nunca tive uma aula mostrando que essa planta, a cannabis, poderia ter potencial terapêutico no tratamento. O que aconteceu é que, depois que eu fiz minha formação em Medicina e em neurocirurgia, comecei a observar muitos pacientes com dor crônica, pacientes com transtornos neurológicos diversos, que não apresentavam resultados satisfatórios com as terapias habituais”, explica.

Patrícia é uma das médicas defensoras do uso do canabidiol no tratamento de diversas doenças, e percebeu durante a pandemia o aumento no interesse de pacientes pelo tratamento. Atualmente, ela prescreve o óleo para pessoas que convivem com dor crônica e com doenças neurológicas degenerativas, como Parkinson, Alzheimer, epilepsia, esclerose múltipla e fibromialgia. “A gente observa respostas dramáticas de pessoas com fibromialgia que estavam com quadros de dor há 15, 20 anos, tentando a melhora com várias medicações, como antidepressivos, anticonvulsivantes, sedativos, enfim, analgésicos diversos e que não apresentavam respostas satisfatórias e, quando foram suplementados [com o canabidiol], apresentaram uma resposta excelente, no sentido de controle da dor, da fadiga e de sintomas associados”, comenta.

Segundo a médica, ainda há muito o que se investigar sobre a cannabis. “Existe muita ciência para explicar por que a planta funciona em diferentes problemas de saúde. A planta já é explorada para fins terapêuticos há milhares de anos, não é novidade isso não, tratados de farmacopeia, de medicina, já referiam o potencial dessa planta. O que tem de novidade é descobrir como e por que a planta funciona”, explica.

Graduado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o médico psiquiatra Wilson Lessa também é um defensor da cannabis medicinal no Brasil, e não só pelo ponto de vista do canabidiol. Segundo Wilson, as pesquisas sobre a cannabis remetem à década de 1980. “Hoje, das doenças psiquiátricas que a gente tem alguma possibilidade terapêutica dos canabinoides, e não necessariamente apenas o canabidiol, mas principalmente ele, temos o autismo, as doenças neurodegenerativas, como Parkinson, Alzheimer e esquizofrenia, com excelentes resultados”, pontua.

De acordo com o médico, foram observadas melhoras no tratamento de ansiedade e de síndrome de Tourette, neste caso com o uso do tetraidrocanabinol (THC), outra substância encontrada na planta da cannabis. “Existem dificuldades em fazer estudos científicos, já que a planta é proibida, mas ao longo desses próximos cinco anos vamos ver muitos outros estudos de qualidade, de evidência científica boa. Estamos vendo apenas uma ponta do iceberg”, acredita.

Veja também: Quinze anos da lei de drogas e seu impacto na justiça, na saúde e na sociedade

Imagem em destaque: Pixabay / subcom810.

Como colocar maconha na alimentação?

Qualquer pessoa pode adicionar maconha na alimentação de forma segura e correta seguindo essas informações

Quando eu falo em aulas ou lives que qualquer pessoa pode colocar maconha na alimentação, eu sei que pode parecer exagero, mas de fato não é. É bem simples adicionar os fitocanabinoides na nossa alimentação e assim conseguimos nos beneficiar de todos os efeitos fitoterápicos que a planta da maconha pode oferecer. Principalmente através da redução de danos dessa forma de consumo, já que eliminamos a combustão.

É importante seguir alguns parâmetros e controles, já que a culinária cannábica vem sendo aperfeiçoada ao longo dos últimos anos e diversas técnicas estão sendo adaptadas e incrementadas. Inclusive já existem no mercado uma infinidade de eletrodomésticos que praticamente fazem as infusões automaticamente.

No entanto, a essência básica de controle de tempo e temperatura se mantém. Então não é preciso fazer grandes investimentos para conseguir fazer as suas infusões cannábicas no conforto da sua cozinha. Depois, com elas em mãos, você pode adicionar às suas receitas favoritas.

Um dos únicos investimentos que eu considero fundamental para quem quer se aventurar na culinária cannábica é um termômetro de forno. Os demais utensílios podemos adaptar com o que temos em casa, como peneira e filtro de café. Mas o termômetro garante que não vamos ultrapassar a temperatura da descarboxilação quando colocamos a erva no forno, já que, em geral, os termostatos de fornos residenciais não são precisos ou não medem temperaturas abaixo de 160 ºC.

Mas sei que muita gente vai se perguntar: mas, afinal de contas, o que é descarboxilação?

Esse termo complicado pode assustar, principalmente quando falamos que ele se refere ao processo de aquecer a erva no forno. Várias pessoas ficam com medo de queimar a ganja e perder os fitocanabinoides, mas seguindo o passo a passo não tem erro. A planta in natura é rica em canabinoides na forma ácida, como THCA e CBDA. Descarboxilar é retirar a molécula ácida (A), para convertê-los em THC e CBD, é um processo de química orgânica.

Essa é uma das razões da maconha crua normalmente não ter efeitos psicoativos. Até dá pra sentir um efeito mínimo, já que dependendo do tempo que a colheita demorou para ser feita, alguns tricomas podem ter maturado. Mas, se você quiser garantir a máxima potência de THC e CBD, é fundamental descarboxilar a erva antes de usar na culinária cannábica.

Garanto a vocês que, fazendo esse processo com a temperatura e tempo controlados, não há riscos de queimar a maconha ao descarboxilar. Porque descarboxilar é uma equação entre tempo x temperatura. Existem várias maneiras de descarboxilar a erva para atingir os resultados desejados, mas a minha equação favorita é manter a erva a 120 ºC, durante uma hora.

Esses valores estão relacionados à temperatura de ativação e evaporação dos canabinoides. Para que os terpenos não se percam na câmera do forno, é importante que você faça esse processo em uma forma envolta em papel alumínio, ou ainda utilizando um vidro de pote de conserva, cuidando sempre para não ter choque térmico e explodir o vidro.

Mas não basta apenas descarboxilar para adicionar a cannabis na alimentação, precisamos extrair os canabinoides dessa erva em alguma base gordurosa ou alcoólica, já que os canabinoides são solúveis apenas em gordura ou álcool. Alguns exemplos de base gordurosa: azeite, manteiga, banha ou óleos. As bases alcoólicas podem ser gin, cachaça, rum, álcool de cereais, vodka.

Essa extração tanto pode ser feita a frio (demorando entre 7 e 30 dias) ou diretamente no calor (pode demorar entre 2 a 12 horas). Baseada nos diversos experimentos e testes que já fiz, considero exagerado deixar uma infusão preparando mais do que 8 horas, porque não percebo diferença de potência depois desse tempo todo. No método com calor, minha recomendação é sempre fazer no banho-maria, já que a água ferve aos 100 ºC e acaba sendo uma garantia de que não vamos ultrapassar essa temperatura e perder a potência da infusão.

Já que cada organismo reage de uma maneira à maconha, eu sempre recomendo que as pessoas testem diferentes métodos, tempos e temperaturas, para só então determinar qual o método é mais eficaz para o seu metabolismo.

Mas, independente do método que você seguir, o último passo é sempre coar a extração e separar o resíduo orgânico da base com canabinoides. Pronto, você já tem tua infusão para adicionar em qualquer receita e até mesmo naquela comidinha que você eventualmente pede pelo delivery.

Essa infusão também pode ser ingerida de forma sublingual de maneira discreta em qualquer lugar. Por fim, faço um alerta: lembrem sempre da importância do controle de temperatura na culinária cannábica. Não utilizem as infusões para refogar, fritar, grelhar ou diretamente na chama do fogo. Em geral, elas devem ser adicionadas ao final do preparo para garantir a potência.

Agora que vocês já sabem como colocar maconha na alimentação quero ver seus preparos, postem as fotos e marquem @lilica.420! Deixei na aba “Guias” do meu Instagram um infográfico da descarboxilação, exemplos de bases possíveis para extração e o passo a passo de como fazer a manteiga cannábica.

No meu canal do Youtube (youtube.com/lilica420) você encontra o vídeo de como descarboxilar e como fazer a manteiga, além de receitas e dicas de como utilizar as infusões na culinária cannábica. Espero vocês por lá também, já aproveitem e se inscrevam no canal. E quem quiser aprender tudo isso e mais um pouco sobre culinária cannábica ainda pode se matricular no meu curso on-line e fazer, de fato, parte da #revoluçãocannábica!

Leia também: Você sabe as principais diferenças entre fumar e comer maconha?

Foto em destaque: Lilica 420.

Nova Orleans (EUA) aprova perdão para 10.000 condenações por posse de maconha

Um dos objetivos dos legisladores, ao aprovar a descriminalização da planta, é permitir que a polícia de Nola concentre seus esforços na redução de crimes violentos

Fonte: Smoke Buddies

Os legisladores da cidade de Nova Orleans, capital da Louisiana (EUA), aprovaram medidas para acabar com as penalidades para pessoas encontradas com pequenas quantidades de maconha.

O Conselho Municipal aprovou na quinta-feira (5) vários itens da agenda para acabar com as penalidades e também para perdoar cerca de 10.000 condenações e casos pendentes, segundo comunicado da presidência do conselho.

De acordo com a nota, a medida ajudará a conquistar a confiança da comunidade junto à polícia e permitirá que os oficiais do Departamento de Polícia de Nova Orleans (NOPD) concentrem seus esforços na redução dos recentes picos de crimes violentos.

Essas novas políticas ajudarão o NOPD a construir a confiança da comunidade e a usar as horas de trabalho economizadas para lidar com questões importantes como tiroteios, assassinatos e prevenção geral da violência em nossa cidade”, disse a presidente do conselho, Helena Moreno (D). “Devemos começar a repensar as práticas históricas que encarceraram, multaram e estigmatizaram nossas comunidades por décadas. A hora de acabar com a criminalização do porte de cannabis é agora. Estou orgulhosa do que este Conselho Municipal realizou hoje. Isso é histórico.”

Embora o conselho não tenha autoridade para legalizar a maconha para uso adulto (apenas a legislatura estadual pode fazer isso), ele tem o poder de descriminalizar totalmente como o fez na sessão de quinta-feira.

Durante a reunião, a conselheira Kristin Palmer (D) disse estar “orgulhosa de que este Conselho finalmente vai acabar com décadas de incursões e prisões racistas que arruinaram a vida de pessoas principalmente negras e pardas em Nova Orleans. A maconha é legal em dezenas de estados e logo será legal no nosso. Nós agora podemos parar de desperdiçar tempo e recursos da polícia com a maconha e deixá-la combater o crime violento”.

Fumar cannabis ainda será proibido nos espaços públicos da cidade, mas isso será multado como uma violação do ato antifumo ao invés de ser tratado como um delito de drogas.

Saiba mais: Como a iluminação suplementar pode ser usada no cultivo de cannabis ao ar livre

Foto em destaque: Stephen Walker | Unsplash.

Você sabe as principais diferenças entre fumar e comer maconha?

Três fatores elementares influenciam nos efeitos da combustão e da ingestão de maconha: a metabolização, a velocidade e a duração da onda. Entenda mais no artigo da chef e professora Lilica, especialista em culinária com cannabis

Há alguns dias li, uma frase de autor anônimo que me fez sorrir: “A cannabis está para as plantas assim como o cachorro está para os animais”. Quem já me conhece sabe que eu amo maconha e amo cachorros (tanto que tenho cinco). Essa analogia deixa bem evidente a relação íntima e milenar que a humanidade desenvolveu com a nossa amada planta.

Existem indícios de que já consumíamos maconha há pelo menos 12 mil anos, na Ásia e Oriente. Ela era usada tanto para fins medicinais quanto sociais, além de cerimônias religiosas.

A utilização da cannabis em forma de alimento foi rapidamente popularizada naquela região. Tanto que, ainda hoje, é bastante comum encontrar por toda a Índia pequenas lojas onde é possível tomar um saboroso Bhang Lassi, bebida com leite infusionada com cannabis e várias especiarias.

Aqui no Ocidente foram nos baseados, blunts, pipes, bongs e vaporizadores que o uso da maconha mais se disseminou, talvez pela facilidade em consumir desta forma e, muito provavelmente, pelo caráter marginalizado que se deu à maconha desde o começo da campanha proibicionista. Afinal de contas, sabemos que aqui no Brasil não existem estabelecimentos legais onde se pode usar maconha.

Mas, com a regulamentação e legalização em diversos países, o consumo dos comestíveis cannábicos está em amplo crescimento. Diversas empresas estão fazendo grandes investimentos nessa indústria e, ao visitar lugares onde esse mercado já é uma realidade, é possível encontrar uma gama enorme de comestíveis com maconha.

E aí talvez você se pergunte por que isso está rolando, já que tem muita gente que fuma e nunca nem sequer pensou em comer maconha. E é claro que existem respostas para esta pergunta. A grande verdade é que a culinária cannábica é uma excelente forma de consumir maconha, reduzindo os danos gerados pela combustão e inalação da fumaça. Sendo assim, a forma de consumo ingerida é mais atraente para usuários que não podem ou não gostam de fumar, além de ser mais discreta e fácil de consumir, o que acaba normalizando o uso e desmistificando diversos preconceitos.

Já vi muitos casos de pessoas que nunca tinham chegado perto de maconha na vida, tinham uma ideia totalmente errada, mas se permitiram experimentar comestíveis e mudaram a cabeça. Mas, você sabe quais as principais diferenças entre inalar e ingerir a cannabis na forma de alimentos?

Então bora lá, existem três fatores elementares: a metabolização, a velocidade e a duração da onda.

Em primeiro lugar, quando fumamos um baseado, os canabinoides são metabolizados pelo nosso pulmão. Eles atravessam os alvéolos pulmonares, entram na circulação e atingem o cérebro em minutos. Mas quando ingerimos o famoso brisadeiro, por exemplo, a metabolização dos canabinoides é feita pelo fígado. Ou seja, antes de absorvê-los, nós precisamos fazer o processo digestivo, para que só depois eles alcancem o nosso fígado.

Aí já fica evidente a segunda diferença entre comer e fumar, que é a velocidade em que sentimos os efeitos. Quando nós damos aquele primeiro tapa no beck, a onda aparece em minutos, bem rapidinho. Mas quando comemos o brisadeiro, os primeiros efeitos podem demorar, no mínimo, trinta minutos para aparecer. Em alguns casos, a pessoa só começa a sentir os efeitos depois de duas horas, duas horas e meia. É lógico que isso varia de pessoa pra pessoa, depende do metabolismo, dosagem, da tolerância e até mesmo de como a pessoa se alimentou naquele dia.

Nesse quesito, até parece que os comestíveis ficam em desvantagem, né? Mas antes do veredito final, devemos considerar a terceira grande diferença, que é a duração da onda. Quando fumamos maconha, os efeitos duram por volta de 1 hora e meia. Mas, ao nos alimentarmos com maconha, os efeitos podem durar de 6 a 12 horas. E existe uma explicação científica pra isso.

O THC (delta-9-THC) é uma molécula formada por 9 partículas. Ao ser metabolizado pelo nosso fígado, a estrutura molecular do THC recebe mais uma molécula de oxigênio e uma de hidrogênio. Isso leva a criação do 11-Hidroxi-THC, um metabólito muito ativo em termos farmacológicos, conhecido por seus efeitos sedativos e psicoativos.

Ou seja, o que acontece é que o THC acaba se transformando em uma molécula maior, o que faz com que o nosso metabolismo demore mais para absorver, processar e eliminar. Isso acaba sendo uma das grandes vantagens de consumir maconha em forma de alimentos, principalmente nos casos medicinais, em que a pessoa precisa de um efeito prolongado dos benefícios dos canabinoides.

E com certeza também agrada às maconheiras e maconheiros mais antigos que nem eu, que querem ter brisas mais intensas e duradouras, mas sofrem com a resistência. Então, agora que você já sabe as diferenças e benefícios dessa forma de consumo, que tal se aventurar na cozinha? No meu Instagram e no meu canal do Youtube existem várias dicas, receitas e informações a respeito da culinária cannábica — e no meu curso on-line explico tudo isso e mais.

Bora colocar a maconha no prato?

Imagem de capa: Lilica 420.

EUA: senadores democratas lançam projeto de lei para acabar com a proibição da maconha

Proposta apresentada nessa quarta-feira no Senado dos EUA visa legalizar a cannabis federalmente no país. Apoio bipartidário necessário para a aprovação em lei do projeto será o maior desafio para os autores da medida. Saiba mais com as informações do MJBizDaily

Via Smoke Buddies

O líder da maioria no Senado dos EUA, Chuck Schumer, revelou nessa quarta-feira (14) o rascunho de um projeto abrangente de reforma da maconha que legalizaria a planta federalmente, removendo-a do Ato de Substâncias Controladas, enquanto permitiria que os estados continuassem a decidir se autorizam ou não as vendas comerciais.

A medida tão esperada surge no momento em que o sentimento público apoia a reforma da maconha e mais estados americanos, incluindo o estado natal de Schumer, Nova York, legalizam a maconha para uso adulto.

Mas a medida enfrenta um desafio dantesco no Senado dos EUA, onde o projeto provavelmente exigiria 60 votos para ser aprovado, o que significa que pelo menos 10 republicanos teriam de participar.

O presidente Joe Biden também ainda não adotou a legalização total, embora tenha expressado apoio à descriminalização da droga.

O rascunho de 163 páginas do chamado Ato de Administração e Oportunidade da Cannabis é o resultado de um processo liderado por Schumer e pelos senadores democratas Cory Booker, de Nova Jersey, e Ron Wyden, do Oregon.

O projeto, se aprovado em lei, iria:

  • Deixar os estados decidirem se ou como irão legalizar a maconha. Essa abordagem de “direitos dos estados” ganhou mais força no Senado do que outras reformas abrangentes.
  • Eliminar a onerosa Seção 280E do código tributário removendo a maconha como substância controlada.
  • Implementar a redução dos impostos federais sobre as vendas de produtos de cannabis. O projeto parece inicialmente exigir um imposto de 10%.
  • Criar três programas de subsídios para ajudar os desfavorecidos economicamente, incluindo os prejudicados pela guerra contra as drogas.
  • Reforçar o financiamento de pesquisas sobre cannabis, incluindo seus impactos no cérebro e na saúde mental. Em audiências públicas, os conservadores costumam falar sobre os danos potenciais do uso da maconha e a necessidade de mais pesquisas antes que a legalização seja considerada.
  • Remover as penalidades federais relacionadas à maconha e eliminar os registros criminais federais não violentos ocasionados em razão da proibição da maconha.

O projeto foi modelado em parte após o Ato MORE, com foco na equidade social, que a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou em dezembro.

A nova Câmara, convocada em janeiro, ainda não aprovou uma reforma abrangente da maconha semelhante.

Steve Hawkins, CEO da US Cannabis Council e diretor executivo do Marijuana Policy Project, em uma declaração implorou ao Congresso “que considere a importância deste momento, ao olhar para os oito estados que legalizaram a cannabis desde a eleição de novembro passado, está claro que acabar com a proibição federal da cannabis é a vontade do povo americano”.

David Mangone, um lobista da maconha, escreveu em um e-mail para o MJBizDaily na quarta-feira que o “Ato de Administração e Oportunidade da Cannabis é o esforço mais abrangente e sério para reformar as leis sobre a cannabis até hoje”.

Conseguir apoio bipartidário para uma “batalha difícil”

“O fato de os autores do projeto de lei estarem procurando abordar questões como justiça social, crescimento da indústria e proteção ao consumidor mostra o apreço pela complexidade da política de cannabis”, escreveu Mangone.

Mangone é diretor de política e assuntos governamentais no Liaison Group com sede em Washington DC, um grupo de advocacy pela reforma da maconha para clientes como a Mesa Redonda Nacional da Cannabis.

Mas, ele acrescentou, “como qualquer projeto de lei no Senado, mesmo a melhor política escrita ainda precisa angariar 60 votos — ganhar apoio bipartidário será uma batalha difícil”.

A Drug Policy Alliance, no entanto, criticou uma cláusula no projeto que continuaria submetendo funcionários federais a testes de drogas e negaria a alguns indivíduos a oportunidade de expurgar seus registros de condenação por delitos relacionados à maconha.

Owen Bennett, analista de ações do banco de investimentos Jefferies, de Nova York, escreveu na quarta-feira que o projeto de lei de Schumer de longo alcance dificilmente será aprovado em sua forma atual.

Entretanto, Bennett observou, “essa mudança ainda é muito importante, pois agora dá início a algum tipo de reforma nos próximos 12 meses”.

Clamor por reforma bancária

Pablo Zuanic, um analista de ações do banco de investimento Cantor Fitzgerald, sediado em Nova York, escreveu em uma nota de pesquisa na manhã dessa quarta-feira que “a sabedoria convencional diz que, no máximo, a reforma bancária (da cannabis) será o único componente que eventualmente conseguirá apoio suficiente (no atual Senado) para ser aprovado”.

Os comentários de Zuanic vieram pouco antes de ver o esboço de Schumer.

Scott Greiper, presidente da Viridian Capital Advisors com sede em Nova York, indicou ao MJBizDaily na terça-feira que sua empresa não espera a legalização federal da maconha por alguns anos.

Frank Colombo, diretor de análise de dados da Viridian, disse que a legalização é mais provável de acontecer em 2023 ou 2024.

Veja também: Educação e informação podem reduzir estigma associado às pessoas que usam drogas

Foto em destaque: Dave Coutinho / Smoke Buddies.