Como calcular a dosagem dos comestíveis cannábicos?

Saber dosar faz parte da redução de danos na hora do consumo de uma receita com maconha

“Ninguém nunca morreu de overdose de cannabis” é uma frase que sempre repito para meus alunos e todas as pessoas interessadas em aprender sobre culinária cannábica. Mas, logo na sequência, faço o alerta de que os efeitos de um consumo exagerado podem ser bastante desagradáveis, principalmente pra pessoas que nunca tenham tido contato com maconha na vida.

Aposto que você já deve ter escutado alguma história de alguém que comeu alguma comida cannábica e a onda bateu muito forte, algumas pessoas inclusive sentem as “bad trips”. Espero que nunca tenha passado por essa experiência, porque de fato esses relatos são mais comuns do que se imagina.

Mas não precisa se preocupar, essa situação não tem relação com a forma de consumo, mas sim com a quantidade consumida. Quando falamos de cannabis, a maneira mais fácil de ultrapassar a dosagem é através dos comestíveis. Já que os efeitos demoram a aparecer, as pessoas acham que não bateu e aí acabam ingerindo mais.

Ou então, quando você até sabe que a infusão está potente, mas a comida está tão gostosa que não consegue parar de comer… E aí, quando a onda bate, pode ser tarde demais, e a ingestão já pode ter sido exagerada.

Por isso precisamos começar aos poucos e ir aumentando a dose gradativamente. Até que um dia você consiga determinar qual é a dosagem ideal para você. Inclusive, também sempre gosto de lembrar que as pessoas reagem de forma diferente à maconha, têm metabolismos diferentes… Então, a minha dose jamais será a mesma de uma pessoa que fumou algumas vezes só ou de alguém que nunca tenha fumado.

Os principais sintomas de sobredose do consumo de cannabis podem ser: taquicardia, boca seca, lentidão, sonolência e, em casos extremos, crises de ansiedade.

O melhor antídoto para isso é se distrair, lembrando sempre que os efeitos em breve vão sumir. Caso tenha exagerado no consumo, beba água, faça um exercício leve, leia um livro, converse com um amigo, assista a um filme ou então vá se deitar e tentar dormir, tendo a certeza de que no dia seguinte não vai acordar com ressaca alguma.

Mas afinal, por que é tão complicado determinar a dosagem ideal de um comestível cannábico?

Por que a potência do comestível depende diretamente da potência da erva utilizada antes da descarboxilação. Diferentes cepas possuem diferentes concentrações de canabinoides. E até a mesma “strain” (genética) cultivada em condições e ambientes diferentes pode ter potências distintas.

Além disso, outro fator importante são as condições gerais de saúde de cada pessoa. A forma como eu me alimentei durante o dia, como estou consumindo e a minha tolerância também interferem na determinação da dosagem ideal. Vou dar um exemplo: se eu não consegui comer nada no dia e faço a primeira refeição cannábica, a onda vai bater muito mais intensamente do que se eu tivesse me alimentado.

Então, a minha maior dica quando o assunto é dosagem é: comece devagar, seja paciente e vá aumentando a dosagem progressivamente. Lembre-se que os efeitos dos comestíveis demoram em média de 30 minutos a 2 horas para começar a aparecer.

Cada pessoa reage à maconha de uma forma diferente. Basta observar uma roda de fumo, onde alguns ficam muito falantes, outros introspectivos, outros com muita larica, outros ansiosos e neuróticos. Uma pessoa que nunca ingeriu maconha deve começar com uma dosagem mínima de 2,5 mg diários e ir aos poucos incrementando a dose até atingir os resultados desejados.

Eu montei uma ferramenta pra ajudar você a calcular a concentração de THC usada nas receitas, é a calculadora de dosagem. Acesse gratuitamente clicando aqui.

Nessa calculadora, é possível determinar a dose de cada uma das porções que você vai preparar, considerando a potência da erva utilizada para fazer a infusão e a quantidade de infusão usada no preparo da receita. E nunca se esqueça de que não existe ninguém melhor do que você para definir a dose, levando em conta as suas experiências pessoais. Eu sei que tem gente que às vezes quer ir na onda e provar um ponto, mostrar que aguenta… Não se deve fazer isso na culinária cannábica, justamente por que a ideia dessa forma de consumo é trazer experiências incríveis e positivamente memoráveis.

Agora que você já sabe como calcular a potência dos teus comestíveis, eu quero ver teus preparos. Poste as fotos e vídeos marcando o @lilica.420. No meu canal do Youtube você encontra o vídeo onde eu explico um pouco mais sobre a dosagem dos comestíveis. Já aproveita pra assistir e também fazer a sua inscrição:

Saiba mais: Como colocar maconha na alimentação?

Imagem de capa: Lilica 420.

Você sabe as principais diferenças entre fumar e comer maconha?

Três fatores elementares influenciam nos efeitos da combustão e da ingestão de maconha: a metabolização, a velocidade e a duração da onda. Entenda mais no artigo da chef e professora Lilica, especialista em culinária com cannabis

Há alguns dias li, uma frase de autor anônimo que me fez sorrir: “A cannabis está para as plantas assim como o cachorro está para os animais”. Quem já me conhece sabe que eu amo maconha e amo cachorros (tanto que tenho cinco). Essa analogia deixa bem evidente a relação íntima e milenar que a humanidade desenvolveu com a nossa amada planta.

Existem indícios de que já consumíamos maconha há pelo menos 12 mil anos, na Ásia e Oriente. Ela era usada tanto para fins medicinais quanto sociais, além de cerimônias religiosas.

A utilização da cannabis em forma de alimento foi rapidamente popularizada naquela região. Tanto que, ainda hoje, é bastante comum encontrar por toda a Índia pequenas lojas onde é possível tomar um saboroso Bhang Lassi, bebida com leite infusionada com cannabis e várias especiarias.

Aqui no Ocidente foram nos baseados, blunts, pipes, bongs e vaporizadores que o uso da maconha mais se disseminou, talvez pela facilidade em consumir desta forma e, muito provavelmente, pelo caráter marginalizado que se deu à maconha desde o começo da campanha proibicionista. Afinal de contas, sabemos que aqui no Brasil não existem estabelecimentos legais onde se pode usar maconha.

Mas, com a regulamentação e legalização em diversos países, o consumo dos comestíveis cannábicos está em amplo crescimento. Diversas empresas estão fazendo grandes investimentos nessa indústria e, ao visitar lugares onde esse mercado já é uma realidade, é possível encontrar uma gama enorme de comestíveis com maconha.

E aí talvez você se pergunte por que isso está rolando, já que tem muita gente que fuma e nunca nem sequer pensou em comer maconha. E é claro que existem respostas para esta pergunta. A grande verdade é que a culinária cannábica é uma excelente forma de consumir maconha, reduzindo os danos gerados pela combustão e inalação da fumaça. Sendo assim, a forma de consumo ingerida é mais atraente para usuários que não podem ou não gostam de fumar, além de ser mais discreta e fácil de consumir, o que acaba normalizando o uso e desmistificando diversos preconceitos.

Já vi muitos casos de pessoas que nunca tinham chegado perto de maconha na vida, tinham uma ideia totalmente errada, mas se permitiram experimentar comestíveis e mudaram a cabeça. Mas, você sabe quais as principais diferenças entre inalar e ingerir a cannabis na forma de alimentos?

Então bora lá, existem três fatores elementares: a metabolização, a velocidade e a duração da onda.

Em primeiro lugar, quando fumamos um baseado, os canabinoides são metabolizados pelo nosso pulmão. Eles atravessam os alvéolos pulmonares, entram na circulação e atingem o cérebro em minutos. Mas quando ingerimos o famoso brisadeiro, por exemplo, a metabolização dos canabinoides é feita pelo fígado. Ou seja, antes de absorvê-los, nós precisamos fazer o processo digestivo, para que só depois eles alcancem o nosso fígado.

Aí já fica evidente a segunda diferença entre comer e fumar, que é a velocidade em que sentimos os efeitos. Quando nós damos aquele primeiro tapa no beck, a onda aparece em minutos, bem rapidinho. Mas quando comemos o brisadeiro, os primeiros efeitos podem demorar, no mínimo, trinta minutos para aparecer. Em alguns casos, a pessoa só começa a sentir os efeitos depois de duas horas, duas horas e meia. É lógico que isso varia de pessoa pra pessoa, depende do metabolismo, dosagem, da tolerância e até mesmo de como a pessoa se alimentou naquele dia.

Nesse quesito, até parece que os comestíveis ficam em desvantagem, né? Mas antes do veredito final, devemos considerar a terceira grande diferença, que é a duração da onda. Quando fumamos maconha, os efeitos duram por volta de 1 hora e meia. Mas, ao nos alimentarmos com maconha, os efeitos podem durar de 6 a 12 horas. E existe uma explicação científica pra isso.

O THC (delta-9-THC) é uma molécula formada por 9 partículas. Ao ser metabolizado pelo nosso fígado, a estrutura molecular do THC recebe mais uma molécula de oxigênio e uma de hidrogênio. Isso leva a criação do 11-Hidroxi-THC, um metabólito muito ativo em termos farmacológicos, conhecido por seus efeitos sedativos e psicoativos.

Ou seja, o que acontece é que o THC acaba se transformando em uma molécula maior, o que faz com que o nosso metabolismo demore mais para absorver, processar e eliminar. Isso acaba sendo uma das grandes vantagens de consumir maconha em forma de alimentos, principalmente nos casos medicinais, em que a pessoa precisa de um efeito prolongado dos benefícios dos canabinoides.

E com certeza também agrada às maconheiras e maconheiros mais antigos que nem eu, que querem ter brisas mais intensas e duradouras, mas sofrem com a resistência. Então, agora que você já sabe as diferenças e benefícios dessa forma de consumo, que tal se aventurar na cozinha? No meu Instagram e no meu canal do Youtube existem várias dicas, receitas e informações a respeito da culinária cannábica — e no meu curso on-line explico tudo isso e mais.

Bora colocar a maconha no prato?

Imagem de capa: Lilica 420.