Representantes de Israel e Canadá defendem tentativa brasileira de regular uso medicinal da maconha

Secretaria de Relações Internacionais promoveu debate virtual sobre a regulamentação da maconha nesta quarta-feira

Fonte: Agência Câmara de Notícias

Em um debate sobre o plantio de maconha para fins medicinais, promovido pela Secretaria de Relações Internacionais da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (16), a deputada israelense Sharren Haskel afirmou que há uma espécie de corrida no mundo para se ter a melhor qualidade de cannabis. Para ela, a regulamentação do assunto no Brasil vai aumentar o alcance das pesquisas.

“Uma vez que temos esse rótulo, a maior parte dos países vai procurar vocês para pesquisas e para exportação. Isso vai beneficiar muito a economia em geral e precisamos manter isso em mente”, afirmou.

Um projeto de lei em análise na Câmara regulamenta o uso de cannabis para a produção de medicamentos (PL 399/15).

A parlamentar israelense acredita que o ideal seriam regras menos burocráticas em relação ao tratamento, para que o preço do produto não fosse alto. “Bastaria a recomendação médica”.

Já o ex-parlamentar canadense Nathaniel Erskine-Smith relatou que, desde 2001, o Canadá tem regras para a cannabis medicinal. Atualmente, o país autoriza também o uso recreativo (adulto) da maconha. Segundo Nathaniel, apesar da controvérsia sobre o consumo recreativo da droga, não houve aumento do uso entre jovens.

“Isso é ciência. Existe algum dano ao adolescente, nós sabemos disso, dos efeitos colaterais, mas, para aqueles que precisam, nós precisamos falar também de um acesso razoável. No Canadá e no Brasil existem preocupações sobre o acesso e é aí que a legalização entra em questão, porque, ao legalizarmos, não vimos nenhum aumento no uso entre 18 e 24 anos de idade”, afirmou.

Viés pró-liberação

Ex-ministro da Cidadania, o deputado Osmar Terra (MDB-RS) salientou que o seminário teve um viés pró-liberação e que outras instituições poderiam ter sido ouvidas.

“Há vários centros que, se o deputado concordar, podemos chamar pra um debate também, porque esse debate de hoje tem um viés pró-liberação, é um viés que enaltece as qualidades da maconha medicinal e não fala nada dos efeitos adversos”, reclamou. Segundo ele, “o objetivo disso tudo é liberar o plantio, liberar a produção em grande escala. A bradicinina vem do veneno da jararaca. É o remédio mais usado para pressão alta. E ninguém cria jararaca para tratar pressão alta”.

O secretário de Relações Internacionais, deputado Alex Manente (Cidadania-SP), explicou que o órgão não convida representantes da iniciativa privada e lembrou que o seminário integra uma série chamada Olhar Internacional, que já debateu outros assuntos, como as pesquisas sobre Covid-19.

Custo alto

Presidente da comissão especial que analisa a proposta para regularizar o plantio de maconha para fins medicinais, o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) diz que a intenção do projeto é dar à população condições de adquirir os medicamentos de que precisa.

“O custo desses medicamentos é alto, um deles chega a ser de 600 dólares, e o segundo de 400 dólares, o que é muito inacessível, proibitivo. E o relatório, muito bem feito pelo deputado Luciano Ducci (PSB-PR), prevê o plantio.”

O relator da proposta afirma que medicamentos à base de maconha já se mostraram eficazes no tratamento de Alzheimer, epilepsia, Parkinson, autismo e síndromes raras. A cannabis é uma alternativa aos que não respondem bem a outras terapias ou aos que sofrem com os efeitos adversos dos medicamentos disponíveis no mercado. No Brasil, o uso medicinal da cannabis já é permitido desde 2006, mas o plantio exclusivamente para fins medicinais ou científicos não foi regulamentado.

E-book gratuito aborda HCs para cultivo de cannabis com fins terapêuticos no Brasil

Desenvolvido pela Open Green, em parceria com a Smoke Buddies, o documento traz uma linha do tempo interativa com o registro das principais decisões judiciais favoráveis ao cultivo doméstico de cannabis no Brasil, além de depoimentos de pacientes e magistrados, infográficos e análises exclusivas de grandes referências no assunto

Resgatar o conhecimento e a autonomia dos indivíduos que buscam acesso à planta para alguma condição de saúde é legítimo e urgente”, afirma Renato Filev, Doutor em Neurologia-Neurociências pela UNIFESP/EPM, em artigo para o e-book ‘HCs para cultivo de cannabis com fins terapêuticos no Brasil’, desenvolvido pela instituição de ensino Open Green com o objetivo de documentar e compartilhar informações úteis sobre o tema.

Digital, interativo e gratuito, o e-book reúne dados, análises e depoimentos, de pacientes e magistrados, que informam e contextualizam as ações de habeas corpus que favorecem o cultivo doméstico de cannabis medicinal no Brasil, incluindo informações sobre as condições médicas para as quais houve salvo-conduto, os estados que concederam decisões (ainda que não definitivas) favoráveis e uma lista com os prós e contras de se impetrar uma ação como esta.

“Este projeto é poderoso porque, ao compilar os casos de pessoas que corajosamente conquistaram o direito ao cultivo caseiro de cannabis, nós mostramos a força que, em consequência da soma de ações judiciais por todo o país, transforma o cenário da cannabis para fins terapêuticos no Brasil”, afirma Larissa Uchida, CEO da Open Green. “E se o legislativo insiste em não incluir o cultivo doméstico de cannabis no projeto de lei que regulamenta o assunto, continuaremos mostrando que no judiciário há outro caminho”.

Dez passos para impetrar uma ação judicial para cultivo doméstico de cannabis com fins terapêuticos

“O habeas corpus é uma ação judicial prevista na Constituição de 1988 para proteger o cidadão de uma ameaça ao seu direito de locomoção ou contra ato abusivo de uma autoridade”, explica o documento. “A intenção deste tipo de ação é resguardar a pessoa que cultiva cannabis da ameaça de ser presa”.

O habeas corpus preventivo, que pode ser impetrado por qualquer cidadão brasileiro, ganha características particulares quando o assunto é, especificamente, garantir a proteção da importação de sementes, do cultivo doméstico e da produção de extratos da cannabis, para fins medicinais, contra eventuais coibições de agentes do Estado. Por isso, o conhecimento não apenas sobre a ação judicial em si, mas sobre terapias à base de cannabis e, inclusive, sobre características biológicas da planta, pode ser útil para a construção de um caso sólido.

Desta forma, o e-book apresenta um miniguia com dez passos para quem tem interesse em obter respaldo judicial para o cultivo doméstico de cannabis, que passam pela obtenção de laudo médico, pelo registro e documentação do plantio, da produção do remédio e dos resultados do tratamento e, claro, pela orientação por profissionais capacitados para tal iniciativa.

“Queremos tocar especialmente os advogados e operadores do Direito, que têm condições de atuar com conhecimento, consciência e propósito nesta área jurídica, mas também os pacientes, que podem levar a conversa para as salas dos médicos e, claro, dos advogados”, conta Larissa.

O e-book ‘HCs para cultivo de cannabis com fins terapêuticos no Brasil’ está disponível para download gratuito, mediante cadastro, aqui na página da Open Green.

Quem tem medo do cultivo doméstico de Cannabis?

Muitos são os interesses em jogo com a regulação da cannabis no Brasil e isso está fazendo um grupo importante, o dos cultivadores, ser excluído do debate. O cultivo doméstico foi a primeira forma de acesso ao uso terapêutico da maconha no país. Entenda mais no texto do advogado Emílio Figueiredo

Fonte LinkedIn via Smoke Buddies

Desde 2019 o debate sobre a regulação da cannabis, principalmente do seu plantio, ferve em Brasília.

Primeiro, o palco foi a ANVISA que realizou consultas e audiências públicas criando falsa expectativa em todo o Brasil sobre um avanço regulatório. Durante toda essa movimentação do órgão sanitário o cultivo doméstico foi desconsiderado. No fim, a ANVISA se reconheceu incompetente para regulamentar o cultivo com um voto de diretor que apontava a falta de lisura e de transparência no processo administrativo, ainda apontando a tentativa de criar uma reserva de mercado.

Ao mesmo tempo, foi criada na Câmara dos Deputados uma comissão especial para tratar do tema a partir do PL399/2015. Estive em uma das audiências públicas defendendo a regulação do cultivo doméstico e associativo, quando fui informado que por conta de acordos políticos o cultivo doméstico não seria aprovado e por isso não constava no PL. Confesso que aquela informação me deixou intrigado.

O cultivo doméstico foi a primeira forma de acesso ao uso da cannabis como ferramenta terapêutica no Brasil nessa onda após o ano 2000, com relatos de muitos casos. Assim como foram os cultivadores os primeiros a puxar a Marcha da Maconha que veio a legalizar o debate após julgamento no STF, mesmo com o risco de serem criminalizados pelas flores que tinham em seus quintais ou armários.

Quando as mães de crianças com graves epilepsias descobriram que o extrato de cannabis servia para tratar as convulsões de seus filhos, foram os cultivadores domésticos que passaram seus saberes empoderando essas mulheres.

Esse encontro entre os pacientes (ou suas mães) e os cultivadores amplificou a prática do cultivo doméstico no Brasil culminando com o reconhecimento em mais de uma centena de decisões em Habeas Corpus que não é crime o cultivo de cannabis em prol da saúde.

Agora que uma nova lei está sendo feita, esta realidade posta é desconsiderada no processo legislativo que se pauta na influência de indústria que não quer competir num mercado que o produto possa ser cultivado em casa e preparado na cozinha a partir de boas práticas. Também com a participação de entidades que nunca se importaram com uso da cannabis como remédio, mas que acordaram para o negócio que é e estão tentando garantir sua fatia de mercado.

A justificativa dos parlamentares é que o cultivo doméstico “não passa” sem que tenha ocorrido um debate público sobre o tema. Forças conservadoras são citadas, contudo, sem exposição de nomes para que possa ocorrer uma tentativa do movimento social mudar essa posição.

Também afirmam que o cultivo “não passa” por que não há como fiscalizar o que as pessoas fazem em casa, preferindo deixar pessoas doentes sujeitas a serem confundidas com criminosos ao cultivar cannabis para tratar doenças. Como não acredito no lobby de fiscais fazendo pressão, me parece uma justificativa infundada usando um fetiche de cabresto para barrar algo tão importante.

Enquanto isso os paradoxos não param de surgir. Pessoas sendo presas ao lidar com cannabis para beneficiar a saúde de outras pessoascomo o caso recém-divulgado de um homem de Marília que está preso por ajudar pessoas doentes com acesso ao extrato de cannabis.

São muitos interesses em jogo com a regulação da cannabis no Brasil e isso está fazendo um grupo importante, como o dos cultivadores, ser excluído do debate. E o questionamento que fica é: quem tem medo do cultivo doméstico de cannabis? Certamente não são os pacientes que querem também a opção do cultivo doméstico para acessar o tratamento, assim como pelo cultivo associativo, ou prateleiras com produtos industrializados e, ainda, pela amplitude do SUS, sem falar da facilidade das farmácias vivas.

Isso que ainda há a recusa de tratar o mal maior que atinge a saúde de todos no Brasil que é a violência gerada pela política de drogas baseada na proibição usada como justificativa para o genocídio da juventude preta e pobre no Brasil. Dizem que são coisas estanques, uso medicinal e política de drogas, mas na verdade é apenas uma visão tacanha da realidade que não permite compreender que de nada adianta a cannabis regulada como medicamento enquanto estamos vivendo uma guerra.

Não consigo dormir tranquilo, pensando naquela frase de Otto von Bismarck (“os cidadãos não poderiam dormir tranquilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis”), sabendo que uma lei esta sendo feita assim, desconsiderando um movimento importante e uma prática que efetivamente salva vidas. Ao mesmo tempo, acordo todo dia cheio de ânimo vendo pessoas tendo uma vida com menos sofrimento através do cultivo doméstico da cannabis e seguindo na luta pelo seu reconhecimento como uma forma do direito fundamental à saúde.