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Fazendas urbanas e o cultivo de cannabis

A ida das pessoas para grandes centros urbanos tem provocado várias crises de abastecimento a tudo o que é produzido nos campos — inclusive a cannabis. As fazendas urbanas vêm para melhorar essa situação! Leia a respeito no texto do Girls in Green

Fonte: Smoke Buddies

Quem curte saber mais sobre o cultivo e as origens da cannabis que usa já deve ter percebido que, aqui no blog, nós somos fãs da agricultura orgânica e, mais ainda, da agricultura regenerativa. Mas, mesmo nesses modelos, ainda vemos algumas dificuldades na distribuição de produtos agrícolas e outros insumos que vêm do campo, fazendo com que diversos profissionais voltem suas energias a encontrar alternativas viáveis para resolver essa situação. Ela nos afeta de diversas formas, aumentando o valor de produtos nas prateleiras — tanto do mercado quanto dos dispensários — e aumentando a emissão de carbono na atmosfera.

Uma das opções que chama cada vez mais atenção são as fazendas urbanas. Elas podem ajudar com problemas de escassez de produtos e dificuldades na distribuição de frutas, verduras, cereais, e, é claro, de maconha (em países onde seu plantio é permitido), além de diminuir os danos que modelos de cultivo padrão têm provocado. E a gente ama reduzir danos, não é mesmo?!

Para quem mora nas cidades, ter autonomia na produção de alimentos e medicamentos pode parecer uma realidade distante, mas não precisa ser. Hoje, a gente veio estender esse debate e contar para vocês tudo o que a gente sabe sobre fazendas urbanas e fazendas verticais, e como elas podem se tornar o futuro do cultivo (não apenas canábico)!

Vem com a gente.

Em que contexto surgem as fazendas urbanas?

Se a gente perguntasse pra você qual o maior problema da humanidade nos dias de hoje, o que você responderia? Talvez você tenha pensado no desmatamento, na falta de comida para quem não pode pagar por ela, na fome e na inanição. Mas, com um pouco mais de reflexão, é possível encontrar um ponto comum entre esses fatores negativos: todos eles estão relacionados às mudanças climáticas.

Quanto mais rápido as condições climáticas mudam, mais sofremos — pois não temos tempo de nos adequarmos a essas mudanças. Outra questão é: com o aumento populacional, como vamos alimentar e disponibilizar água limpa para os próximos bilhões de pessoas?

Se o desmatamento parasse e as árvores cortadas crescessem novamente, a Terra poderia recuperar seu balanço de carbono. Com isso, a atmosfera não aqueceria com tanta rapidez e teríamos mais tempo para nos ajustar às inevitáveis mudanças climáticas. Mas a realidade é que a cada dia perdemos mais florestas — que são transformadas em áreas de monocultura justamente para alimentar a crescente população.

Atualmente, se juntarmos todo o território no mundo que utilizamos para produzir nossa comida, o resultado é uma extensão de terra maior do que a América do Sul.

E o que vamos fazer quando não houver mais terra para cultivar?

Ufa. É muita informação, né? Corremos o risco de soar alarmistas, mas a situação é realmente bem preocupante.

Nos Estados Unidos, metade das fazendas são de propriedade de grandes empresas do agronegócio. Do que produzem, 80% é exportado. Essa é, de acordo com Dickson, uma cultura comercial para poucos, mas expressivos, grandes agricultores. Os fazendeiros comuns continuam recebendo pouco até mesmo para a própria sobrevivência, e com as mudanças climáticas eles estão tendo diversas dificuldades. Fazendeiros da Califórnia, do Texas e da Flórida estão lidando com secas, queimadas, inundações e furacões. Quando você junta tudo isso, a quantidade de insumos que eles produzem apenas cai, enquanto as demandas internacionais aumentam.

Esses movimentos também já foram observados na produção de cannabis. Nesse ano, a Jamaica tem registrado escassez da planta devido às mudanças climáticas e à pandemia. Como nem todo mundo tem acesso aos prazeres do autocultivo, precisamos de algumas outras alternativas.

As possíveis soluções

O premiado professor de microbiologia e saúde pública na Universidade de Columbia, Dr. Dickson Despommier, explica que é necessário retomar os terrenos que estão sendo utilizados para a monocultura e permitir que eles se recuperem. Segundo ele, as árvores voltariam sozinhas, pois as sementes estão no solo — nós só não damos a elas a chance de crescerem, pois continuamos jogando herbicidas para matá-las.

Se a agricultura convencional recuasse, aconteceria o processo chamado “sucessão ecológica”: primeiro, volta a grama; depois, mais e mais plantas aparecem, até as árvores tomarem conta do lugar novamente.

Segundo ele, existem muitos dados científicos que comprovam os “reparos ecológicos” e a capacidade de reequilíbrio das florestas quando simplesmente deixamos de intervir. Mas como fazer isso em um mundo onde precisamos de mais e mais alimentos? A resposta é uma: mudar a maneira de produzir. E aí que chegamos nas fazendas urbanas!

O que são fazendas urbanas, girls?

As fazendas urbanas são nada mais do que edifícios e espaços urbanos que estão sendo repensados e reutilizados para a produção agrícola, com uma boa ajuda da tecnologia. Com um ambiente totalmente controlado, não são necessários agrotóxicos, já que os vegetais não ficam expostos às mudanças climáticas ou mesmo à ação de possíveis pragas. Com uma perda menor e economia de recursos, os preços do que é produzido tendem a cair.

Vamos pensar que são praticamente como os grows indoor quando falamos no cultivo da cannabis, mas em uma expansão para outros tipos de plantas e vegetais.

Um dos pioneiros no assunto, Despommier criou o conceito de fazendas verticais. Sua ideia é trabalhar com um conceito que já conhecemos: o das estufas. Elas permitem recriar condições climáticas ideais para os mais diversos tipos de vegetais, em qualquer lugar do mundo. As fazendas verticais seriam muito parecidas com a nossa ideia de apartamentos. Ao invés de famílias, os ocupantes seriam as espécies cultivadas.

Dickson utiliza como exemplo as alfaces. No método tradicional, em um ano, são realizadas três ou quatro colheitas. No método indoor, com estufas, é realizada uma colheita a cada seis semanas. Existe uma enorme diferença em produtividade, além da disponibilidade de alimentos o ano todo e da segurança alimentar — pois tudo o que tem nesses vegetais é altamente controlado.

Além de todas essas vantagens, existe algo em que acreditamos muito: o consumo local. É uma forma mais consciente de consumir, sejam alimentos, ervas ou outros produtos, que ajuda a fortalecer a economia local, dando mais oportunidades para pequenos empresários. Além disso, sem precisar percorrer grandes distâncias para levar o que é produzido, a pegada de carbono desse processo é zerada. Bom demais, certo?

Como andam esses projetos?

As fazendas verticais já estão em sua terceira geração. De acordo com Despommier, cada versão delas é melhorada a partir dos resultados e aprendizados da anterior. Como qualquer tecnologia, ela deve passar por um processo de refino até que suas operações estejam atingindo todinhos os objetivos. Ainda assim, elas já mostram a sua eficiência e a segurança de alimentos criados em ambientes controlados, sem precisar de qualquer mudança genética.

A expectativa do professor é que em cinco anos elas já estejam sendo vastamente utilizadas e sejam conhecidas como uma maneira lucrativa e eficiente de produzir alimentos para a população urbana. Ainda segundo ele, é preciso refletir: dos 300 mil anos que estamos na terra, apenas 12 mil são com plantações. Da mesma forma que nos adaptamos a essa tecnologia, também nos adaptaremos às novas.

Hidroponia e aeroponia

Se você está por dentro de temáticas sobre cultivo, já ouviu falar em hidroponia. Em plantações hidropônicas, os vegetais são plantados em canos, por onde passa uma solução de água nutritiva. Essa solução atinge apenas as suas raízes, e dá ao broto o que é necessário para o seu desenvolvimento saudável. Ela usa 70% menos água do que a agricultura tradicional.

Mas existe um conceito ainda mais novo e mais econômico sendo testado nas fazendas urbanas e verticais: a aeroponia. Na aeroponia, você borrifa essa solução nutritiva diretamente nas raízes dos vegetais enquanto eles se desenvolvem. Nesse método, é utilizado de 70 a 80% menos água do que na hidroponia.

E temos exemplos aplicados na cannabis?

Ainda são poucos os casos, mas já vemos um universo a ser explorado! Em Israel, referência em pesquisas com a cannabis e na inovação na agricultura, já aparecem instalações similares, chamadas de “fazendas-fábricas”. Atualmente, em um Kibutz, um coletivo para atividades agrícolas, surgiu a primeira fazenda para plantação de cannabis de uso medicinal no país. Totalmente digitalizada, possui um projeto especial de iluminação para as plantas se desenvolverem mais rapidamente e com qualidade. A colheita é feita por braços robóticos. Bizarro onde a tecnologia chegou, não é mesmo?

Alguns pontos interessantes são que:

  • O investimento inicial para esse tipo de grow é alto, mas ele compensa. Em menos de oito anos, já existem fazendas verticais com uma lucratividade que permitiu com que todos os débitos gerados pela sua implantação fossem pagos em tempo recorde. Um dos exemplos citados por Dickson é a AeroFarms, de Newark, Estados Unidos.

  • Para quem curte um plantio indoor, as fazendas urbanas são uma expansão nesse mesmo pensamento de ambiente controlado, com menos riscos e pragas e mais colheitas ao longo do ano. Nelas, é possível imitar as melhores condições da natureza para respeitar os requisitos de cada strain cultivada.

  • Ao ficar nas próprias cidades, essas fazendas podem ser perfeitas para suprir as demandas dessa população em específico, entregando alimentos e medicamentos (como maconha) de qualidade, frescos e sem o aumento de custos por intempéries, transporte e armazenamento. Elas eliminam processos, o que diminui a pegada de carbono das plantações e deixa o consumo ainda mais consciente.

Existem vários paralelos que podemos traçar entre as fazendas urbanas e o cultivo indoor de cannabis. Acreditamos que fica mais simples de entender quando explicamos que uma fazenda urbana é basicamente um grow indoor de larga escala. Com luzes artificiais controladas, ambiente esterilizado e meios de cultivo selecionados a dedo, com adição de nutrientes específicos, ambos tornam o cultivo nas grandes cidades possível — e dão origem a insumos de altíssima qualidade.

Significa que as fazendas convencionais não vão mais existir?

Para Dickson, o futuro da alimentação está na agricultura vertical. Nos próximos 20 anos, a previsão é de que 80% da população estará vivendo nas cidades e grandes centros urbanos. É preciso encontrar soluções viáveis não apenas para aumentar e otimizar a produção de alimentos, mas também pensar em sua distribuição. Quanto mais perto das pessoas, melhor. E é essa a proposta das fazendas urbanas. Como se fosse uma forma de reduzir danos de quem mora na cidade.

Não podemos dizer que os tempos de outdoor vão acabar com certeza, e pela deusa nem queremos isso! Mas entendemos como essa estratégia pode ser útil para aqueles que vivem vidas nas zonas urbanas e querem alimentos orgânicos de qualidade. Hoje em dia nós moramos no campo e temos inúmeras fazendas ao nosso redor, mas não são todas as pessoas que têm esse privilégio, não é mesmo?

Embora as fazendas urbanas deixem a desejar no quesito “contato com o natural de forma holística”, quem sabe elas não possam coexistir e se completar? A gente espera que sim!

Mas a gente vê que essas novas possibilidades da agroecologia também são novas possibilidades de mudar a arquitetura, a engenharia e o próprio método como pensamos tudo o que nos cerca.

Dickson vai bem longe e afirma que, com a tecnologia que temos hoje, podemos viver em uma floresta de arranha-céus que tenham praticamente a mesma função biológica das árvores, pois cada edifício pode criar seus próprios alimentos e gerar sua própria energia! Todas essas mudanças gerariam uma economia de recursos naturais e de dinheiro, que poderia ser focado em diversos outros setores — como educação e saúde.

Enfim, são muitas as formas de repensar nossos meios e estudar novos conceitos para melhorar não apenas a nossa qualidade de vida, mas a da vida no planeta como um todo. As fazendas urbanas ou verticais são conceitos incríveis, e a gente aposta demais neles — em conjunto com tudo o que já sabemos sobre agricultura orgânica — para resgatarmos um relacionamento mais saudável com nossos recursos naturais.

Imagem de capa: Edenworks.

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