Open Green

Depois de 50 anos, EUA abrem as portas para mais produtores de cannabis para fins de pesquisa

O governo dos Estados Unidos está levantando um obstáculo à pesquisa da cannabis que cientistas e defensores dizem ter impedido estudos rigorosos da planta e possível desenvolvimento de medicamentos por mais de 50 anos. As informações são da NPR

Via Smoke Buddies

Desde 1968, os pesquisadores dos EUA têm permissão para usar cannabis de apenas uma fonte nacional: uma instalação baseada na Universidade do Mississippi, por meio de um contrato com o Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (NIDA).

Isso mudou no início deste mês, quando Drug Enforcement Administration (DEA — agência de repressão às drogas dos EUA) anunciou que está registrando várias outras empresas estadunidenses para produzir cannabis para fins médicos e científicos.

É um movimento que promete acelerar a compreensão dos efeitos da planta na saúde e possíveis terapias para o tratamento de condições — dor crônica, efeitos colaterais da quimioterapia, esclerose múltipla e doenças mentais, entre muitas outras — que ainda não foram bem estudadas.

“Esta é uma decisão importante”, disse Rick Doblin, diretor executivo da Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (MAPS), que liderou a pesquisa em outras drogas da Tabela 1 — a classe mais restritiva de substância controlada, que o governo federal define como “drogas sem uso médico atualmente aceito”.

“Esta é a última obstrução política à pesquisa com drogas da Classe 1”, diz ele.

Cerca de um terço dos americanos vive atualmente em um estado onde a maconha para uso adulto é legal — e mais de 30 estados têm programas de maconha medicinal. No entanto, os cientistas ainda não podem simplesmente usar a cannabis vendida em dispensários licenciados pelo estado para suas pesquisas clínicas por que a cannabis continua ilegal sob a lei federal.

“É uma grande desconexão”, diz o Dr. Igor Grant, professor de psiquiatria e diretor do Centro de Pesquisa de Cannabis Medicinal da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD).

A nova decisão da DEA não resolve o conflito entre as leis federais e estaduais, mas oferece aos pesquisadores um novo canal sancionado pelo governo federal para mais produtos e variedades de cannabis.

“Veremos uma década ou mais de explosão de pesquisas sobre a cannabis e novas terapias potenciais”, diz o Dr. Steve Groff, fundador e presidente da Groff North America, uma das três empresas que anunciou publicamente que tem aprovação preliminar do governo federal para cultivar cannabis para pesquisa.

Uma longa luta para derrubar o monopólio federal

Apesar de seus esforços, os cientistas encontraram obstáculos administrativos e legais para o cultivo de cannabis de grau farmacêutico por décadas.

Em 2001, o Dr. Lyle Craker, um proeminente biólogo de plantas, foi o primeiro a se inscrever para obter uma licença para cultivar maconha para fins de pesquisa — apenas para encontrar anos de atraso que deram início a uma prolongada batalha judicial com a DEA, que precisa dar luz verde à pesquisa sobre as drogas da Tabela 1 como cannabis.

“Existem milhares de variedades diferentes de cannabis que têm perfis químicos únicos e produzem efeitos clínicos únicos, mas não tínhamos acesso a essa diversidade normal”, disse a Dra. Sue Sisley, pesquisadora de cannabis e presidente do Instituto de Pesquisa Scottsdale, que também recebeu aprovação preliminar da DEA para produzir cannabis para pesquisa.

Somente em 2016 o governo federal sinalizou uma mudança na política que abriria as portas para novos produtores, mas os pedidos de solicitantes interessado em se tornar um novo cultivador autorizado definharam por anos. Craker e outros acabaram processando o governo federal pelo atraso.

Sisley há muito tempo questiona o fornecimento de cannabis proveniente das instalações do NIDA no Mississippi — em particular, como é processada. Ela usou cannabis produzida lá em seu ensaio clínico publicado recentemente sobre o tratamento de transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) em veteranos militares.

Ela descreve o produto como um pó esverdeado “anêmico”.

“É muito difícil superar o efeito placebo quando você tem algo que se dilui”, diz ela.

O estudo de 76 pessoas, que levou 10 anos para ser concluído, concluiu que a cannabis fumada era geralmente bem tolerada e não causava efeitos deletérios neste grupo. Mas também não encontrou nenhuma diferença estatisticamente significativa na redução dos sintomas de TEPT em comparação com um placebo.

Para Grant da UCSD, o problema de longa data com o suprimento de cannabis não é tanto a qualidade, mas a falta de produtos diferentes como comestíveis e óleos e de variedades de cannabis com concentrações variáveis ​​de CBD e THC, o principal ingrediente psicoativo da planta.

“Não temos pesquisas suficientes sobre o tipo de produtos de maconha que as pessoas no mundo real estão usando”, diz ele.

Por causa da oferta interna limitada, alguns pesquisadores recorreram à importação de cannabis de fora dos EUA — um acordo legal, mas totalmente contraintuitivo, que é “árduo” e sujeito a soluços, diz Sisley.

As restrições à pesquisa de cannabis também impediram o caminho para o desenvolvimento de drogas porque a instalação de cannabis do NIDA só poderia ser usada para pesquisas acadêmicas, não para o desenvolvimento de drogas prescritas. Uma droga estudada em ensaios clínicos de fase 3 — o que é necessário antes de ser submetido à aprovação da Food and Drug Administration (FDA, agência sanitária dos EUA) — deve ser a mesma que é comercializada posteriormente.

“O monopólio do NIDA foi o motivo principal de termos maconha medicinal nos estados, mas não termos maconha medicinal por meio da FDA”, disse Doblin, da MAPS. “É uma mudança fundamental que agora permitirá que tenhamos desenvolvimento de drogas com suprimentos nacionais”.

Algumas barreiras ainda permanecem

As poucas empresas que em breve terão permissão da DEA para cultivar cannabis têm um mercado ávido de pesquisadores que estão “clamando” pela chance de estudar as propriedades científicas e o potencial médico da planta, diz Groff, cuja empresa está para aprovação da DEA e quem também tem um projeto no âmbito da FDA para estudar as propriedades antimicrobianas da cannabis para matar bactérias perigosas como MRSA.

No final do ano que vem, Groff prevê que sua empresa estará produzindo até 5.000 libras (2.270 kg aproximadamente) de maconha por ano, oferecendo aos pesquisadores um “menu completo de opções personalizáveis”.

Biopharmaceutical Research Company — uma terceira empresa que em breve cultivará cannabis com uma licença da DEA — já tem dezenas de acordos em vigor com pesquisadores dos EUA e está ouvindo mais instituições acadêmicas, farmacêuticas e empresas de biotecnologia na esteira da mudança na política, diz o CEO George Hodgin.

“Agora há um caminho muito claro, aprovado e legal para eles entrarem legalmente no mercado de cannabis nos Estados Unidos”, diz Hodgin.

Centro de Política, Pesquisa e Extensão da Cannabis da Universidade Estadual de Washington é um dos lugares que espera adquirir cannabis da empresa de Hodgin.

“É definitivamente um grande passo na direção certa porque a indústria está se movendo muito mais rápido do que nós em pesquisa”, disse Michael McDonell, professor associado de medicina e diretor do centro de cannabis da universidade.

Mas ele também aponta que mesmo com mais produtores vindos em linha, ainda não é fácil estudar cannabis, porque os pesquisadores precisam de uma licença especial para trabalhar com uma droga de Classe 1 e bolsas para conduzir esses estudos são difíceis de conseguir.

Apesar do uso generalizado de maconha nos EUA, a pesquisa sobre o potencial médico de outras drogas da Tabela 1 como MDMA (ecstasy) está muito mais adiantada do que a da cannabis.

Grant, da UCSD, diz que o maior salto para a pesquisa viria de tirar a cannabis da classificação de drogas da Tabela 1. “Se isso acontecesse”, diz ele, “resolveria muitos dos problemas de que temos falado”.

Imagem de capa: Coleen Danger | Flickr.

Leia também...

Entrar em contato
Envie um whatsapp