Pesquisadoras identificam patógenos que causam podridão radicular em plantas de cannabis

Estudo conduzido por pesquisadoras da Universidade de Connecticut mostrou que a doença é causada pelo oomiceto Pythium myriotylum. A identificação de patógenos preocupantes fornece informações importantes aos produtores de cannabis

Via Smoke Buddies

A cannabis se tornou uma parte importante da economia do estado de Connecticut (EUA). Com a recente legalização da maconha para uso adulto, espera-se que continue crescendo.

Isso significa que é importante ter certeza de que as próprias plantas de cannabis também estão, literalmente, crescendo tão bem quanto podem.

A candidata a PhD Cora S. McGehee e a professora associada de horticultura Rosa E. Raudales da Faculdade de Agricultura, Saúde e Recursos Naturais da Universidade de Connecticut (UConn) publicaram um estudo na Frontiers in Agronomy documentando a presença de patógenos infectando plantas de cannabis em Connecticut. Este foi o primeiro artigo a mostrar que esses patógenos estão presentes nas instalações de cultivo de cannabis de Connecticut.

Plantas de todos os tipos, incluindo cannabis, sofrem de infecções por uma variedade de patógenos. Então, McGehee e Raudales entraram neste estudo por acidente. A pesquisa de McGehee se concentra nas interações planta-micróbio em relação às doenças radiculares causadas por espécies patogênicas de Pythium na alface hidropônica. Mas seu treinamento e a experiência de Raudales em fitopatologia as colocaram em uma posição única para lidar com questões semelhantes em uma nova safra de alto potencial.

“É inevitável com toda a produção de cannabis ao nosso redor”, diz McGehee.

Elas foram chamadas para uma visita ao local para avaliar a saúde geral da planta em algumas plantas de cannabis em uma instalação de Connecticut. No entanto, durante a visita, as pesquisadoras rapidamente perceberam que algumas das plantas eram sintomáticas de podridão radicular, uma doença que causa amarelecimento, definhamento e redução do crescimento.

A partir daí, a curiosidade das pesquisadoras se instalou na tentativa de desvendar a origem dessa desordem infectando essas plantas.

As pesquisadoras pegaram amostras de substrato de coco e lã de rocha em que as plantas estavam crescendo e realizaram uma série de análises e experimentos. Elas coletaram amostras do estágio de muda, bem como de plantas maduras.

Primeiro, elas examinaram as características morfológicas dos organismos obtidos a partir dos substratos. Observando o tamanho e a forma das estruturas sexuadas e assexuadas em um microscópio, as pesquisadoras foram capazes de identificar que tipo de organismos estavam olhando.

Então elas isolaram o DNA dos organismos, amplificaram genes específicos para os organismos e enviaram os produtos amplificados para os laboratórios da Universidade Yale e Eurofins Genomics LLC para sequenciamento, o que permitiu a McGehee e Raudales comparar as sequências de seus organismos com um banco de dados nacional contendo outras sequências de pesquisadores para confirmar suas identificações.

As pesquisadoras identificaram um isolado de Fusarium oxysporum, três isolados de Globisporangium irregulare e 21 isolados de Pythium myriotylum. Além de serem as espécies patogênicas mais abundantes nas amostras, os isolados de Pythium myriotylum também foram os patógenos mais virulentos ou prejudiciais.

“Uma vez infectada, é muito difícil reviver a planta e usá-la para ganho”, diz McGehee. “É praticamente um caso perdido”.

A dupla conduziu ensaios de patogenicidade com cânhamo em laboratório e em estufa. Elas instalaram centenas de plantas de cânhamo na estufa da UConn e as infectaram intencionalmente com os patógenos.

Depois de monitorar essas plantas cuidadosamente, verificando diariamente os sintomas, as pesquisadoras confirmaram que todas as espécies e isolados testados eram patogênicos para as plantas de cannabis.

A identificação de patógenos preocupantes fornece aos produtores de cannabis informações importantes. Ao saber quais patógenos “gostam” das plantas de cannabis, os cultivadores podem adotar estratégias de prevenção mais eficazes que visem especificamente esses patógenos.

Por exemplo, as espécies de Pythium prosperam em ambientes úmidos. Isso significa que os produtores devem evitar regar demais suas safras.

Esses patógenos também se espalham facilmente, o que significa que os produtores precisam remover as plantas infectadas e os detritos o mais rápido possível para evitar que o patógeno infecte outras safras em produção.

O estudo também descobriu que os patógenos eram sensíveis ao mefenoxam, o ingrediente ativo em fungicidas químicos usados ​​para suprimir o Pythium. No entanto, este produto químico não é rotulado para uso em plantações de cannabis.

Os produtores podem empregar outras estratégias, como monitoramento do uso da água, pH e níveis de sal solúvel, bem como limpeza, higienização e uso de fungicidas biológicos para mitigar o impacto desses patógenos.

“É importante para os produtores começarem a relacionar essas doenças com os patógenos que as causam”, diz McGehee. “Acho que isso ajudará nas estratégias de gerenciamento e na prevenção de surtos de doenças em suas instalações.”

Leia também: Óleo de cannabis melhora bem-estar de pacientes com doenças como demência e fibromialgia

Foto em destaque: Unsplash / Brad Rubin.

Óleo de cannabis melhora bem-estar de pacientes com doenças como demência e fibromialgia

Canabinoides extraídos da maconha possibilitam uma melhora significativa no tratamento de diversas patologias. Saiba mais na reportagem do Correio do Estado

Via Smoke Buddies

Cercado de tabus, o uso do canabidiol como medicamento no tratamento de inúmeras doenças tem crescido no Brasil, inclusive em Mato Grosso do Sul. A substância extraída da planta cannabis, popularmente conhecida como maconha, possibilita uma melhora significativa no tratamento de patologias como Parkinson, Alzheimer, autismo, epilepsia e esclerose múltipla.

Foi graças ao óleo de canabidiol que o músico Francisco Saturnino Lacerda Filho, do Grupo Acaba, conhecido como Chico, teve alguns momentos de tranquilidade ao lado da família antes da demência mista, vascular com parkinsoniana, atingi-lo novamente. “Começamos a usar o óleo há quatro meses, quando meu pai começou a entrar na fase grave da demência. Ele tem demência mista, vascular com parkinsoniana. Os remédios não estavam mais segurando a doença e nem fazendo o efeito desejado”, explica a filha de Francisco, Carina Cury Lacerda. “Até chegarmos na gota ideal demorou cerca de 15 dias, e logo começamos a ver melhora. De um quadro catatônico, ele passou a sorrir, ter interações, mesmo que sem sentido e muitas vezes delirantes, relembrar hábitos antigos, ter as próprias vontades e fazer sinapses cerebrais”, detalha.

Aos 76 anos, Francisco agora luta novamente contra a doença, que evoluiu rapidamente no último mês. “Hoje ele se encontra em outro quadro, está entrando na fase grave da doença, com infecção e outros problemas intestinais. Convivemos com os problemas da doença e do corpo fragilizado, porém, o que o óleo de canabidiol nos trouxe e nos traz são momentos de alegria e de prazer, tanto para nós familiares quanto para o paciente”, conta a filha.

Carina conseguiu adquirir o óleo por meio do trabalho realizado pela Associação Sul-Mato-Grossense de Pesquisa e Apoio à Cannabis Medicinal Divina Flor, que viabiliza a substância a pacientes de MS. Segundo um dos diretores da associação, Alexander Onça, a ideia de criar a iniciativa surgiu em 2019, quando ele e uma amiga, a também diretora Jéssica Luana Camargo, receberam a prescrição médica para o uso do canabidiol. “Nós dois somos pacientes, eu sou portador de síndrome de Tourette, descobri há 4 anos, e meu neurologista prescreveu o óleo. Nós percebemos como era difícil e caro importar, o custo do óleo é, em média, de R$ 2.500 na farmácia”, relata.

Depois de várias tentativas de adquirir o produto, os dois descobriram que existiam diversas associações do gênero no Brasil e participaram de um curso em São Paulo para aumentar o conhecimento sobre o tema. “Isso foi em 2019. A gente fez um curso pela Sociedade Brasileira de Estudo da Cannabis Sativa, formada por médicos, psiquiatras, neurologistas, pessoas bem sérias e dentro da prefeitura de São Paulo. Foi bem avançado, e descobrimos vários médicos que nos apoiam aqui. Por meio da associação, a gente consegue os óleos para os pacientes com um custo menor, dependendo da dosagem. Cerca de 20% também são para doação gratuita, ou seja, pessoas que recebem gratuitamente o óleo quando não têm condições de arcar com os custos”, ressalta.

Por enquanto, a associação luta pelo direito de cultivar a planta em Mato Grosso do Sul. “Nossa autorização está transitando na Justiça Federal, no nome da associação, além disso, auxiliamos os pacientes a conseguirem o medicamento em outras associações”, esclarece. Para Carina, o óleo fez a diferença na vida da família nos últimos meses. “Desejo que todos que tenham o mesmo problema, ou outros, como autistas, pacientes oncológicos etc., possam ter a oportunidade de fazer o uso do óleo”, frisa.

Quem também viu benefícios foi Fabiana Rodrigues, 36 anos, mãe da pequena Lara Gabriel de Souza Rodrigues, de apenas cinco anos, que tem paralisia cerebral e epilepsia de difícil controle. “Ela já toma há quase dois anos e mudou muito, os espasmos que ela tinha com grande frequência diminuíram. Faz um ano que eu comecei a adquirir o óleo pela associação, antigamente comprava de outro lugar que tinha um preço bem mais caro. O pessoal da associação me deu um suporte bem grande em vista do que eu pagava antes”, pontua.

Ciência

Os avanços no uso do canabidiol no Brasil são amparados pela ciência e por médicos, que têm prescrito mais a substância.

No entanto, segundo a médica neurocirurgiã Patrícia Montagner, nem sempre foi assim. “Eu me formei, fiz minha especialização médica e nunca tive acesso a esse conhecimento na academia, nunca ouvi falar no sistema endocanabinoide, nunca tive uma aula mostrando que essa planta, a cannabis, poderia ter potencial terapêutico no tratamento. O que aconteceu é que, depois que eu fiz minha formação em Medicina e em neurocirurgia, comecei a observar muitos pacientes com dor crônica, pacientes com transtornos neurológicos diversos, que não apresentavam resultados satisfatórios com as terapias habituais”, explica.

Patrícia é uma das médicas defensoras do uso do canabidiol no tratamento de diversas doenças, e percebeu durante a pandemia o aumento no interesse de pacientes pelo tratamento. Atualmente, ela prescreve o óleo para pessoas que convivem com dor crônica e com doenças neurológicas degenerativas, como Parkinson, Alzheimer, epilepsia, esclerose múltipla e fibromialgia. “A gente observa respostas dramáticas de pessoas com fibromialgia que estavam com quadros de dor há 15, 20 anos, tentando a melhora com várias medicações, como antidepressivos, anticonvulsivantes, sedativos, enfim, analgésicos diversos e que não apresentavam respostas satisfatórias e, quando foram suplementados [com o canabidiol], apresentaram uma resposta excelente, no sentido de controle da dor, da fadiga e de sintomas associados”, comenta.

Segundo a médica, ainda há muito o que se investigar sobre a cannabis. “Existe muita ciência para explicar por que a planta funciona em diferentes problemas de saúde. A planta já é explorada para fins terapêuticos há milhares de anos, não é novidade isso não, tratados de farmacopeia, de medicina, já referiam o potencial dessa planta. O que tem de novidade é descobrir como e por que a planta funciona”, explica.

Graduado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o médico psiquiatra Wilson Lessa também é um defensor da cannabis medicinal no Brasil, e não só pelo ponto de vista do canabidiol. Segundo Wilson, as pesquisas sobre a cannabis remetem à década de 1980. “Hoje, das doenças psiquiátricas que a gente tem alguma possibilidade terapêutica dos canabinoides, e não necessariamente apenas o canabidiol, mas principalmente ele, temos o autismo, as doenças neurodegenerativas, como Parkinson, Alzheimer e esquizofrenia, com excelentes resultados”, pontua.

De acordo com o médico, foram observadas melhoras no tratamento de ansiedade e de síndrome de Tourette, neste caso com o uso do tetraidrocanabinol (THC), outra substância encontrada na planta da cannabis. “Existem dificuldades em fazer estudos científicos, já que a planta é proibida, mas ao longo desses próximos cinco anos vamos ver muitos outros estudos de qualidade, de evidência científica boa. Estamos vendo apenas uma ponta do iceberg”, acredita.

Veja também: Quinze anos da lei de drogas e seu impacto na justiça, na saúde e na sociedade

Imagem em destaque: Pixabay / subcom810.

Quinze anos da lei de drogas e seu impacto na justiça, na saúde e na sociedade

O grave impacto da lei de drogas nas políticas públicas de segurança e de saúde, no sistema de justiça e na ciência evidencia grandes problemas da sociedade brasileira

Fonte: Smoke Buddies

Se de boas intenções o inferno está cheio, a aplicação, ao longo de quinze anos, de uma legislação que, de um lado, cria “medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas” e, de outro, “estabelece normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas” traz efeitos colaterais não apenas a quem se envolve diretamente no consumo ou no comércio de substâncias ilícitas, mas aos sistemas públicos de saúde, de segurança e de justiça, além das esferas da ciência e da sociedade civil.

“A partir da política nacional de drogas, o Brasil implementa uma cultura de violência e repressão como solução para a questão das drogas na sociedade”, explica o advogado criminalista Erik Torquato. “No meu pensar, a sociedade brasileira precisa passar por um processo de reflexão sobre o caminho que estamos trilhando”.

Texto e contexto

A lei de drogas (11.343/2006) completa quinze anos nesta segunda (23) e, no olhar de pesquisadores, advogados, profissionais e ativistas ouvidos pela Smoke Buddies, a análise de sua aplicação traz à tona grandes problemas sociais, como o racismo e o estigma a usuários de drogas, e consequências profundas, como a falta de acesso aos serviços de saúde e o encarceramento em massa de brasileiros.

“Quando a lei 11.343 foi sancionada, o caminho até essa sanção, ou seja, o trabalho prévio junto ao Congresso nacional, toda articulação do poder Executivo, tinha o propósito de justamente tirar da esfera criminal, tratar as pessoas que faziam uso de drogas de uma maneira que não se confundissem com os traficantes”, explica Andrea Gallassi, coordenadora-geral do Centro de Referência sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas da UnB. “Esse projeto de lei tinha o propósito de justamente tratar as pessoas que usam drogas em uma perspectiva de saúde pública, de oferta de direitos, e a lei foi vista como bastante ousada e progressista nesse sentido, dialogando com os avanços internacionais que vinham acontecendo também”.

Do texto à prática, no entanto, a falta de distinção entre as condutas que definem os respectivos tratamentos do Estado coloca nos operadores da lei, nem sempre preparados, a responsabilidade de julgar pelo subjetivo contexto. “O que ocorreu foi que, depois da promulgação, a gente tem um efeito colateral bem importante, que foi o aumento do encarceramento de usuários, justamente por que a lei não deixa claro quem são as pessoas consideradas traficantes e quem são as pessoas consideradas usuárias”, conta Gallassi.

Art. 28, § 2º Para determinar se a droga destinava-se a consumo
pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância
apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a
ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e
aos antecedentes do agente

 

“Como a lei não deixa critério definido de quem é traficante e quem é usuário para consumo pessoal, ficou aberto para o policial definir quem vai ser enquadrado por tráfico”, explica o historiador Henrique Oliveira, que aponta como outro problema do texto o aumento da pena mínima para os casos de tráfico, de três anos, na lei anterior (6.368/76), para cinco anos a partir de 2006.

“A consequência disso é a criminalização de pessoas pretas e pobres, mulheres e homens negros, que são usuários, mas por estarem em uma região de comércio de drogas, ou não terem emprego fixo, ou renda fixa, ou moradia fixa, são enquadradas no tráfico, porque o que vai valer é um embate de quem está acusando e o acusado, e há uma tendência muito maior em enquadrar pessoas brancas, de classe média, como usuárias. A sociedade, o policial, o delegado, o promotor e o juiz vão acreditar muito mais fácil que um jovem negro é traficante do que um jovem branco”, analisa Henrique.

Sheila Geriz, coordenadora da Liga Canábica e presidente da Federação das Associações de Cannabis Terapêutica (Fact), considera a lei 11.343 “uma norma legal que na prática transformou em política de Estado o encarceramento de pessoas pretas, pobres e periféricas, sobretudo jovens e mulheres, institucionalizando o racismo que serviu de base para a construção da primeira Lei que proibiu o uso da cannabis no Brasil, a Lei do Pito do Pango, da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, editada em 1830 (primeira lei no mundo a proibir o uso da cannabis)”.

Boom no encarceramento

Para o advogado, cofundador e coordenador executivo do Instituto de Defesa da População Negra (IDPN)Joel Luiz Costa, a influência da aplicação da lei de drogas é nítida pelo aumento da população carcerária nos últimos anos no país.

“A taxa de encarceramento a cada 100 mil habitantes passou de 137, em 2000, para 367,91 até junho do ano passado. Em 1990, essa taxa era de 61 pessoas”, conta. “Não podemos deixar de lado questões como crescimento populacional e aumento de produção e transparência de dados sobre o sistema prisional, entretanto, é inegável o efeito da lei 11.343 no aumento da população prisional, dado que temos em torno de 35% das pessoas privadas de liberdade presas por infração à referida lei. Ou seja, dos, aproximadamente, 800 mil presos que temos hoje, 280 mil são em razão da lei de drogas”.

“O ponto é, a referida lei, dado o problemático texto, propicia ao sistema de justiça criminal que este use requisitos subjetivos para diferenciar o usuário do traficante, conforme exposto no artigo 28. Isto posto, em um país que usa o sistema prisional para controle de corpos dos indesejados, gerou essa fábrica de produzir ‘criminoso’, onde uma farda policial e um punhado de droga é o suficiente para ceifar a liberdade de alguém, atribuindo a ele a alcunha de traficante, sem direito ao papel de usuário. E este alguém responde aos requisitos do imaginário do que é o criminoso no Brasil: pobre, favelado, jovem e de preferência negro”, explica Joel Luiz Costa.

Estigma do usuário

“Muito embora digam que a legislação de 2006 descriminalizou o consumo de drogas, já que o usuário não teria privação de liberdade, existem ainda medidas de caráter restritivo, como multa, prestação de serviço comunitário, que abarcam o usuário”, explica Henrique Oliveira.

Apesar de não punir com restrição de liberdade quem é considerado usuário, a lei não apenas mantém a criminalização, mas prejudica também o acesso à saúde da população, com a imposição um estigma social negativo ao usuário. “O mesmo Estado que busca oferecer tratamento para pessoas que usam drogas é o que diz para essas pessoas que elas são criminosas”, explica Andrea Gallassi. “Essa dupla mensagem é muito difícil para alguém que quer acessar um serviço de saúde pública e tem medo de sofrer uma sanção, ser preso”.

“E tem outro ponto: a criminalização afeta a qualidade das drogas”, aponta a pesquisadora. “As pessoas usam droga de péssima qualidade e isso também tem um efeito terrível para a saúde. Quando o foco é na repressão, você não investe em ações de prevenção, tratamento, redução de danos, reinserção social”.

A inconstitucionalidade do artigo 28, que criminaliza o usuário de drogas, está sob julgamento (há seis anos) no Superior Tribunal Federal.

Questão de gestão pública

“Se por um lado é inegável que o consumo desregulado de drogas causa danos sociais e demanda políticas públicas”, diz o advogado Erik Torquato, “por outro lado, temos uma política pública atualmente sendo implementada que, além de não ser eficaz no que tange a promoção de saúde e o cuidado à sociedade, ainda produz um notório efeito colateral que se apresenta pelo alto número de vítimas letais em decorrência dos confrontos armados e o superencarceramento dos presídios, o que também deve ser entendido como um problema a ser pensado pela sociedade que demanda uma solução”.

A política que reforça a guerra às drogas também custa caro — segundo levantamento do projeto Drogas, Quanto Custa Proibir, R$ 5,2 bilhões foram gastos com a repressão às drogas apenas em São Paulo e no Rio de Janeiro em um ano, pela Polícia Militar, Polícia Civil, Ministério Público, Defensoria Pública, tribunais de Justiça, sistema penitenciário e sistema socioeducativo.

“Outro ponto que afeta a saúde pública é a violência ocasionada pela proibição, pela guerra às drogas, que impõe um custo altíssimo ao Sistema Único de Saúde”, conta Andrea Gallassi. “A gente tem o homicídio como terceira causa de morte entre homens com idade entre 14 e 44 anos, quer dizer, isso é um efeito da guerra às drogas e tem um impacto importantíssimo na saúde pública”.

Falando em saúde…

Outro ponto indefinido do texto 11.343 e sobre o qual, quinze anos depois, o congresso volta a se debruçar, é sobre a regulamentação do acesso medicinal e das pesquisas científicas — como no caso do PL 399, que altera a lei para definir as regras do cultivo e da produção de cannabis para usos terapêutico e veterinário, em tramitação na Câmara dos Deputados.

“O projeto 399, de 2015, nada mais faz do que legitimar aquilo que o texto da lei 11.343 já coloca, que é de permitir o cultivo nacional para fins medicinais e para fins de pesquisa”, explica Andrea Gallassi. “A criminalização tem um impacto muito pesado na questão do avanço científico na pesquisa com substâncias proibidas e prejudica o avanço na ciência com relação aos potenciais benefícios das drogas proscritas, especialmente neste caso, da cannabis. É um obstáculo importantíssimo para o avanço nas pesquisas científicas”.

Quinze anos depois, o que fica?

Encarceramento em massa, falta de acesso aos serviços de saúde, estigmatização de usuários, bilhões despendidos com um combate fracassado ao comércio ilegal. Para a ativista Sheila Geriz, “após 15 anos de vigência, se há que falar em algo positivo da atual Lei de Drogas é o fato de nos levar a refletir sobre o quanto é urgente e necessária a construção de uma nova política de drogas em nosso país”.

“A gente precisa não apenas dizer que a legislação falhou, mas colocar que é impossível a nível global reprimir o consumo e o comércio de drogas, porque nenhum lugar do mundo consegue fazer isso”, diz Henrique Oliveira. “O Brasil utiliza a lei antidrogas para fazer repressão social, à população negra, à população pobre. É um mecanismo de controle social muito forte, capaz de legitimar chacinas de doze, quinze, vinte, vinte e cinco pessoas, como ocorre no Rio de Janeiro, em Salvador, no Ceará. É preciso continuar denunciando o proibicionismo dentro dessa crítica à lei antidrogas, não só em relação à lei em si, mas em como o proibicionismo mantém como objetivo impedir o consumo de drogas, sua distribuição e produção. O Estado usa dessa legislação para impor uma ordem, um controle, a grupos que estão vulneráveis e são vistos como indesejáveis — a população negra, indígena, pobre”.

Para Joel Luiz Costa, “o ponto fundamental para encarar e estancar o problema é a legalização e regulamentação do porte, produção e comercialização de todas as drogas. Gostaria de deixar evidente que nós trabalhamos com o debate sobre política de drogas que inclua todas as drogas, pois encaramos a problemática do proibicionismo como um problema de segurança pública, haja vista como a guerra às drogas legitima não só o encarceramento em massa, mas também a política de segurança pública pautada no confronto, militarização da vida e genocídio da população negra”.

Erik Torquato conclui a análise: “penso que a sociedade brasileira precisa colocar os interesses que envolvem a política de drogas na mesa de debate e repensar a política pública que tem sido aplicada no país. Somente sendo sensível com todos os interesses que estão em jogo poderemos avançar enquanto sociedade em busca de uma solução racional. Enquanto isso não ocorrer, continuaremos perdidos em meio aos tiroteios e doentes espalhados pelas ruas”.

Saiba mais: Posse de drogas para uso pessoal: seis anos de espera pelo julgamento

Fotografia de capa: THCamera Cannabis Art.

Como colocar maconha na alimentação?

Qualquer pessoa pode adicionar maconha na alimentação de forma segura e correta. Entenda como no texto da cozinheira cannábica Lilica, a seguir

Quando eu falo em aulas ou lives que qualquer pessoa pode colocar maconha na alimentação, eu sei que pode parecer exagero, mas de fato não é. É bem simples adicionar os fitocanabinoides na nossa alimentação e assim conseguimos nos beneficiar de todos os efeitos fitoterápicos que a planta da maconha pode oferecer. Principalmente através da redução de danos dessa forma de consumo, já que eliminamos a combustão.

É importante seguir alguns parâmetros e controles, já que a culinária cannábica vem sendo aperfeiçoada ao longo dos últimos anos e diversas técnicas estão sendo adaptadas e incrementadas. Inclusive já existem no mercado uma infinidade de eletrodomésticos que praticamente fazem as infusões automaticamente.

No entanto, a essência básica de controle de tempo e temperatura se mantém. Então não é preciso fazer grandes investimentos para conseguir fazer as suas infusões cannábicas no conforto da sua cozinha. Depois, com elas em mãos, você pode adicionar às suas receitas favoritas.

Um dos únicos investimentos que eu considero fundamental para quem quer se aventurar na culinária cannábica é um termômetro de forno. Os demais utensílios podemos adaptar com o que temos em casa, como peneira e filtro de café. Mas o termômetro garante que não vamos ultrapassar a temperatura da descarboxilação quando colocamos a erva no forno, já que, em geral, os termostatos de fornos residenciais não são precisos ou não medem temperaturas abaixo de 160 ºC.

Mas sei que muita gente vai se perguntar: mas, afinal de contas, o que é descarboxilação?

Esse termo complicado pode assustar, principalmente quando falamos que ele se refere ao processo de aquecer a erva no forno. Várias pessoas ficam com medo de queimar a ganja e perder os fitocanabinoides, mas seguindo o passo a passo não tem erro. A planta in natura é rica em canabinoides na forma ácida, como THCA e CBDA. Descarboxilar é retirar a molécula ácida (A), para convertê-los em THC e CBD, é um processo de química orgânica.

Essa é uma das razões da maconha crua normalmente não ter efeitos psicoativos. Até dá pra sentir um efeito mínimo, já que dependendo do tempo que a colheita demorou para ser feita, alguns tricomas podem ter maturado. Mas, se você quiser garantir a máxima potência de THC e CBD, é fundamental descarboxilar a erva antes de usar na culinária cannábica.

Garanto a vocês que, fazendo esse processo com a temperatura e tempo controlados, não há riscos de queimar a maconha ao descarboxilar. Porque descarboxilar é uma equação entre tempo x temperatura. Existem várias maneiras de descarboxilar a erva para atingir os resultados desejados, mas a minha equação favorita é manter a erva a 120 ºC, durante uma hora.

Esses valores estão relacionados à temperatura de ativação e evaporação dos canabinoides. Para que os terpenos não se percam na câmera do forno, é importante que você faça esse processo em uma forma envolta em papel alumínio, ou ainda utilizando um vidro de pote de conserva, cuidando sempre para não ter choque térmico e explodir o vidro.

Mas não basta apenas descarboxilar para adicionar a cannabis na alimentação, precisamos extrair os canabinoides dessa erva em alguma base gordurosa ou alcoólica, já que os canabinoides são solúveis apenas em gordura ou álcool. Alguns exemplos de base gordurosa: azeite, manteiga, banha ou óleos. As bases alcoólicas podem ser gin, cachaça, rum, álcool de cereais, vodka.

Essa extração tanto pode ser feita a frio (demorando entre 7 e 30 dias) ou diretamente no calor (pode demorar entre 2 a 12 horas). Baseada nos diversos experimentos e testes que já fiz, considero exagerado deixar uma infusão preparando mais do que 8 horas, porque não percebo diferença de potência depois desse tempo todo. No método com calor, minha recomendação é sempre fazer no banho-maria, já que a água ferve aos 100 ºC e acaba sendo uma garantia de que não vamos ultrapassar essa temperatura e perder a potência da infusão.

Já que cada organismo reage de uma maneira à maconha, eu sempre recomendo que as pessoas testem diferentes métodos, tempos e temperaturas, para só então determinar qual o método é mais eficaz para o seu metabolismo.

Mas, independente do método que você seguir, o último passo é sempre coar a extração e separar o resíduo orgânico da base com canabinoides. Pronto, você já tem tua infusão para adicionar em qualquer receita e até mesmo naquela comidinha que você eventualmente pede pelo delivery.

Essa infusão também pode ser ingerida de forma sublingual de maneira discreta em qualquer lugar. Por fim, faço um alerta: lembrem sempre da importância do controle de temperatura na culinária cannábica. Não utilizem as infusões para refogar, fritar, grelhar ou diretamente na chama do fogo. Em geral, elas devem ser adicionadas ao final do preparo para garantir a potência.

Agora que vocês já sabem como colocar maconha na alimentação quero ver seus preparos, postem as fotos e marquem @lilica.420! Deixei na aba “Guias” do meu Instagram um infográfico da descarboxilação, exemplos de bases possíveis para extração e o passo a passo de como fazer a manteiga cannábica.

No meu canal do Youtube (youtube.com/lilica420) você encontra o vídeo de como descarboxilar e como fazer a manteiga, além de receitas e dicas de como utilizar as infusões na culinária cannábica. Espero vocês por lá também, já aproveitem e se inscrevam no canal. E quem quiser aprender tudo isso e mais um pouco sobre culinária cannábica ainda pode se matricular no meu curso on-line e fazer, de fato, parte da #revoluçãocannábica!

Leia também: Você sabe as principais diferenças entre fumar e comer maconha?

Foto em destaque: Lilica 420.

Posse de drogas para uso pessoal: seis anos de espera pelo julgamento

“O primeiro passo para o enfrentamento desse infeliz cenário é o reconhecimento de que o Estado não tem legitimidade constitucional para criminalizar a posse de drogas para consumo pessoal”, segundo José Roberto Coêlho Akutsu1 e Rachel Lerner Amato2, em artigo de opinião para a ConJur

Via Smoke Buddies

Neste mês, vergonhosamente será alcançada a marca de seis anos desde o início do julgamento do Recurso Extraordinário 635.659, em que se discute, sob o regime de repercussão geral (tema 506), a tipicidade do porte de drogas para consumo pessoal.

O julgamento começou em agosto de 2015, quando proferiu voto o ministro Gilmar Mendes (relator) e pediu vista o ministro Edson Fachin. Em seguida, ainda em setembro daquele ano, proferiram votos os ministros Fachin e Luís Roberto Barroso, tendo o ministro Teori Zavascki pedido vista dos autos.

Com seu falecimento, no início de 2017, o caso foi submetido à apreciação do então recém-empossado ministro Alexandre de Moraes, que o devolveu para julgamento apenas no final de 2018 — isto é, quase dois anos depois. Depois disso, o recurso foi incluído e excluído do calendário de julgamentos do Supremo em duas oportunidades, e ainda não há previsão a para retomada do julgamento. A situação é inadmissível.

O Brasil é o terceiro país com maior número de pessoas presas no mundo. De acordo com a última pesquisa divulgada pelo Infopen, sistema de informações estatísticas do Departamento Penitenciário Nacional, no final de 2019 o país tinha cerca de 750 mil indivíduos encarcerados. Mais de 20% dos crimes que ensejaram as prisões eram relacionados ao comércio de drogas. A isso se soma uma pesquisa realizada pelo juiz Marcelo Semer em oito Estados entre 2013 e 2015, que apontou que em entre 56% e 75% dos casos de tráfico analisados foram apreendidos menos de 100 gramas de maconha ou de 50 gramas de cocaína e/ou crack.

Prendemos muita gente por pouca droga, e isso é especialmente grave diante do “estado de coisas inconstitucional” percebido nas penitenciárias brasileiras, que tem como uma de suas razões a superpopulação carcerária. Não existe desculpa jurídica, lógica ou humana para o que fazemos com as pessoas presas em nosso país.

O primeiro passo para o enfrentamento desse infeliz cenário é o reconhecimento de que o Estado não tem legitimidade constitucional para criminalizar a posse de drogas para consumo pessoal.

Dessa forma, a injustificável demora para decidir tema que afeta tão profundamente tantos brasileiros exige questionamentos sérios a respeito do tempo que se tem admitido que os ministros permaneçam com vista de autos de processos e da absurda discricionariedade do presidente do Supremo Tribunal Federal no manejo do calendário de julgamentos da corte.

Quanto ao primeiro ponto, a prestação jurisdicional célere é dever do Estado. Assim, há muito já se deveria observar o que prevê o próprio regimento interno do STF: “O ministro que pedir vista dos autos deverá apresentá-los, para prosseguimento da votação, no prazo de trinta dias, contado da data da publicação da ata de julgamento”.

Em casos excepcionais, para se garantir a transparência e a possibilidade de controle que são próprias do exercício da função pública, o ministro que pediu a vista deveria ao menos oferecer justificativa concreta nos autos para não os devolver no prazo regimental. Infelizmente essa prática não encontra lugar na Suprema Corte brasileira. É ordinário que processos e ações aguardem em berço esplêndido por incontáveis meses ou anos até que — por algum motivo também não justificado — finalmente se leve a matéria para discussão colegiada.

A discricionariedade objeto do segundo ponto, por outro lado, fica evidente em uma análise mais detida do que ocorreu nas duas exclusões do caso do calendário de julgamentos do STF anteriormente referidas.

O RE 635.659 estava pautado havia quase seis meses para ser julgado em 5/6/2019. No dia 28 de maio daquele ano, no entanto, o ministro Dias Toffoli chamou para julgamento na sessão do dia 30 daquele mês quatro ações que tratavam da possibilidade de privatização de empresas públicas sem o aval do Legislativo. No início da sessão do dia 30, o ministro informou que estavam previstas nove sustentações orais sobre aquela matéria e, portanto, que o início das votações se daria na sessão posterior. Com isso, foram adiados o RE das drogas e a discussão sobre a criminalização da homofobia.

A retomada do julgamento sobre a tipicidade do porte de drogas para consumo pessoal ficou para 6 de novembro. No dia 28 de outubro, no entanto, o mesmo ministro anunciou que no dia 7 de novembro seguiriam com o debate a respeito da prisão após confirmação da condenação em segunda instância. Assim, adiou-se mais uma vez o julgamento sobre o consumo pessoal de entorpecentes, e desde então, isto é, desde 2019, sequer se informou à população brasileira quando o Supremo deve voltar a discutir o tema de — repita-se — repercussão geral reconhecida.

É indignante. Não só pela inacreditável demora no enfrentamento da questão, mas também por que há uma sensação de absoluta não democracia em um país em que um único indivíduo pode decidir — de acordo com critérios não revelados, sejam eles legítimos ou não — quais inconstitucionalidades serão analisadas em cada momento.

Vale registrar que essas duas margens para manobras — demora na devolução de autos e administração do calendário do Supremo — são objeto de críticas há anos.

Apenas para exemplificar, em maio de 2018 o editorial do Boletim do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) denunciou o aparentemente estratégico julgamento, pela ministra presidente Carmen Lúcia, de ordem de Habeas Corpus do ex-presidente Lula (HC 152.752) em detrimento de duas ações declaratórias de constitucionalidade (ADCs 43 e 44) que discutiam o mesmo assunto, aguardavam apreciação desde muito antes e teriam alcance muito maior. A suspeita era de que a ministra o teria feito para evitar que a tese por ela defendida fosse vencida.

Mencionou-se ainda que no julgamento da ADI 4650, que discutia o financiamento de campanhas eleitorais, um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes durou um ano e cinco meses, impedindo que a decisão da maioria já formada surtisse efeitos na campanha eleitoral de 2014. Por fim, anotou-se que “o ministro Luiz Fux, após conceder liminar na Ação Originária 1.773, em setembro de 2014, concedendo auxílio-moradia a juízes federais (e depois estendendo a toda a magistratura), somente liberou o processo para votação em dezembro de 2017”, o que teria gerado uma despesa de R$ 1 bilhão.

Assim, para além da já citada necessidade de se observar o regimento interno do STF quanto ao prazo concedido para vista de processos em julgamento, há de se discutir a inclusão, na mesma norma, de uma disciplina mais detalhada dos poderes do presidente quanto à pauta de julgamentos. Com isso, a sociedade poderá exercer um controle mais efetivo sobre possíveis estratégias como as acima mencionadas, que podem estar norteadas pelos mais diversos motivos.

Até lá, devemos continuar a exercer constante vigilância e cobrança da prestação jurisdicional que nos é devida.

No caso do RE 635.659, há carradas de razão para que a inclusão em pauta se dê com a maior brevidade possível. Para além de todos os argumentos já mencionados, vale lembrar que os três votos colhidos até aqui (ministros Gilmar Mendes, Edson Fachin e Luís Roberto Barroso) são, em maior ou menor medida, pela inconstitucionalidade da incriminação, a indicar ainda com mais ênfase a urgência em se enfrentar o tema, que poderá impactar milhares de persecuções penais.

1José Roberto Coêlho Akutsu é advogado criminalista, especialista em Direito Penal Econômico pela Escola de Direito de São Paulo da FGV e sócio do escritório Kehdi & Vieira Advogados.

2Rachel Lerner Amato é advogada criminalista, sócia do escritório Kehdi & Vieira Advogados e especialista em Direito Penal Econômico pela Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Leia também: Especialização em cannabis: a porta de entrada para o mercado canábico

Foto de capa: Dave Coutinho / Smoke Buddies.

Especialização em cannabis: a porta de entrada para o mercado canábico

Muitos consumidores e adeptos à cultura sonham em mergulhar de cabeça no setor canábico, que pode movimentar R$ 26,1 bilhões no Brasil. Especialização em cannabis é estratégia para se posicionar no mercado

Fonte: Smoke Buddies

Após mais de uma década acompanhando os avanços da cannabis pelo mundo, podemos afirmar que a questão agora sobre a planta no Brasil é “quando?”, e não mais “será que vai regulamentar?”.

Desde 2014 temos visto progressos, debates e, digamos, alguns tímidos avanços, no Legislativo, no Judiciário, em conselhos e em agências reguladoras, permitindo que pacientes busquem por profissionais médicos para uma terapia com produtos à base de cannabis, possam adquirir seus medicamentos de forma legal, do exterior ou por meio de associações, além de produzir o próprio remédio em casa, como é o caso de mais de trezentos pacientes que possuem um salvo-conduto, onde a Justiça resguarda o paciente de ações policiais que coloquem em risco sua segurança, a do cultivo e obviamente a do produto que mantém a saúde desta pessoa.

Mesmo que a passos lentos, sob rejeição da política conservadora e entre “idas e vindas”, a cannabis brota nas pautas de discussões em Brasília, como o Projeto de Lei 399/2015, aprovado há pouco tempo em Comissão Especial da Câmara dos Deputados. Em debate há seis anos, o projeto que veio inicialmente com um escopo para o uso medicinal da cannabis foi além ao englobar a produção de cânhamo para fins industriais.

De acordo com levantamento da empresa de inteligência do mercado de cannabis Kaya Mind, a regulamentação da cannabis no Brasil poderia gerar 117 mil empregos e movimentar R$ 26,1 bilhões em quatro anos no país, como mostra o artigo publicado em junho pela Forbes.

Especialização em cannabis

Vislumbrando que em alguns anos a cannabis, para fins terapêutico e industrial, inevitavelmente será regulamentada no país, é certo que o mercado necessitará, além de terras, sementes e licenças de operações, de profissionais com especializados. Quem quiser ter uma posição nas milhares de vagas e oportunidades de trabalho que o mercado canábico brasileiro pode gerar no país deve o quanto antes e cada vez mais se especializar no assunto.

Recentemente, a Open Green, uma startup de cursos canábicosuniu-se à Smoke Buddies com a visão de proporcionar mais acessibilidade a especialistas e a seus conteúdos, através de uma plataforma de ensino a distância totalmente reformulada e com mais cursos na área. A nova plataforma reúne cursos canábicos com os maiores especialistas do segmento para quem busca especialização nas seguintes áreas:

Direito

CANNABIS: HABEAS CORPUS E OUTRAS MEDIDAS JUDICIAIS

Para quem, desde já, deseja fazer parte da mudança, principalmente na vida de pacientes e familiares que dependem do cultivo caseiro para a produção do remédio, o curso “Cannabis: Habeas Corpus e outras medidas judiciais” ensina sobre a planta, seus usos terapêuticos e função social, a história da proibição, além de um conteúdo exclusivo sobre ações que envolvem o acesso à planta para uso medicinal, como custeio de tratamentos e impetração de Habeas Corpus para o cultivo doméstico.

O curso tem como objetivo capacitar advogados, demais operadores do direito e interessados como pacientes e pessoas à frente das associações canábicas, que visam acompanhar o dinamismo do mercado, no sentido de abrir novas possibilidades no Direito e nos assuntos relacionados à cannabis.

Acesse e saiba mais: https://cursos.opengreen.com.br/cursos/cannabis-habeas-corpus-e-outras-medidas/

Cultivo

CURSO DE CULTIVO INDOOR E OUTDOOR 2.0

Para pacientes ou para quem busca produzir seu próprio remédio à base de cannabis com custo menor, o “Curso de Cultivo Indoor e Outdoor 2.0” ensina as técnicas e os segredos para cultivar cannabis com eficiência e ótimos resultados.

Acesse e saiba mais: https://cursos.opengreen.com.br/cursos/curso-de-cultivo-indoor-e-outdoor-20/

Gastronomia

CURSO DE CULINÁRIA LILICA.420

Com finalidades terapêuticas, um dos métodos de consumo que pode ser realizado pelos pacientes é através da alimentação, deixando mais palatável o tratamento de pacientes. Nesse curso de culinária a chef Lilica ensina as melhores sacadas da cozinha canábica e as melhores receitas com quem entende do assunto.

O objetivo do curso é ensinar a colocar cannabis na alimentação de forma segura e deliciosa, mudar a relação com a planta e consumir cannabis de maneira diferente, por meio de comestíveis de todos os tipos, doces ou salgados. Descubra na prática como colocar maconha no seu prato, sem cometer erros e com quem é especialista.

Acesse e saiba mais: https://cursos.opengreen.com.br/cursos/curso-de-culinaria-da-lilica420/

CURSO DE CULINÁRIA COZINHA 420

O curso Cozinha 420 é outra opção para quem deseja aliar cannabis e alimentação para preparar saborosas receitas canábicas. Através de um método divertido, o curso mostra como fazer as suas próprias receitas e se tornar um(a) especialista no assunto.

Acesse e saiba mais: https://cursos.opengreen.com.br/cursos/curso-de-culinaria-cozinha-420/

Alerta de spoiler

Além dos conteúdos acima, já disponíveis na plataforma, a Open Green lançará em breve novos cursos abrangendo mais segmentos relacionados à planta e seus usos, que ensinarão, por exemplo, a como criar uma associação canábicacomo empreender no segmento, além de cultivo e extrações para fins terapêuticos em escalas caseira e industrial.

Fique por dentro dos novos cursos que estão brotando em breve na plataforma, promoções e muito mais. Assine a newsletter da Open Green.

Se eu pudesse dar só uma dica sobre o futuro, seria esta: se torne um especialista em cannabis!

Leia mais: Direito, cultivo, cozinha: cursos oferecem conhecimento especializado em cannabis

Foto de capa: Rafael Rocha / Smoke Buddies.

Nova Orleans (EUA) aprova perdão para 10.000 condenações por posse de maconha

Um dos objetivos dos legisladores, ao aprovar a descriminalização da planta, é permitir que a polícia de Nola concentre seus esforços na redução de crimes violentos

Fonte: Smoke Buddies

Os legisladores da cidade de Nova Orleans, capital da Louisiana (EUA), aprovaram medidas para acabar com as penalidades para pessoas encontradas com pequenas quantidades de maconha.

O Conselho Municipal aprovou na quinta-feira (5) vários itens da agenda para acabar com as penalidades e também para perdoar cerca de 10.000 condenações e casos pendentes, segundo comunicado da presidência do conselho.

De acordo com a nota, a medida ajudará a conquistar a confiança da comunidade junto à polícia e permitirá que os oficiais do Departamento de Polícia de Nova Orleans (NOPD) concentrem seus esforços na redução dos recentes picos de crimes violentos.

Essas novas políticas ajudarão o NOPD a construir a confiança da comunidade e a usar as horas de trabalho economizadas para lidar com questões importantes como tiroteios, assassinatos e prevenção geral da violência em nossa cidade”, disse a presidente do conselho, Helena Moreno (D). “Devemos começar a repensar as práticas históricas que encarceraram, multaram e estigmatizaram nossas comunidades por décadas. A hora de acabar com a criminalização do porte de cannabis é agora. Estou orgulhosa do que este Conselho Municipal realizou hoje. Isso é histórico.”

Embora o conselho não tenha autoridade para legalizar a maconha para uso adulto (apenas a legislatura estadual pode fazer isso), ele tem o poder de descriminalizar totalmente como o fez na sessão de quinta-feira.

Durante a reunião, a conselheira Kristin Palmer (D) disse estar “orgulhosa de que este Conselho finalmente vai acabar com décadas de incursões e prisões racistas que arruinaram a vida de pessoas principalmente negras e pardas em Nova Orleans. A maconha é legal em dezenas de estados e logo será legal no nosso. Nós agora podemos parar de desperdiçar tempo e recursos da polícia com a maconha e deixá-la combater o crime violento”.

Fumar cannabis ainda será proibido nos espaços públicos da cidade, mas isso será multado como uma violação do ato antifumo ao invés de ser tratado como um delito de drogas.

Saiba mais: Como a iluminação suplementar pode ser usada no cultivo de cannabis ao ar livre

Foto em destaque: Stephen Walker | Unsplash.

Como a iluminação suplementar pode ser usada no cultivo de cannabis ao ar livre

Entender como podemos manipular algumas variedades de maconha com luz fornece uma maneira totalmente nova de cultivo, com potencial para muitas safras por temporada. Saiba mais no texto de Allison Justice* para o MJBizDaily

Via Smoke Buddies

Tradicionalmente, no cultivo de cannabis, o pensamento é simplesmente aplicar mais de 18 horas de luz por dia para manter as plantas vegetativas e mudar para 12 horas para induzir a floração.

Isso funciona, então por que mudar?

À medida que o cultivo de cannabis ao ar livre se espalha pelos EUA, a compreensão de como a cannabis responde à luz se torna muito evidente.

Alguns produtores estão descobrindo que a iluminação suplementar é necessária, mesmo em cultivos ao ar livre.

Fotoperiodismo

O que é fotoperíodo? É uma mudança fisiológica baseada na duração da noite.

Portanto, embora pensemos e falemos de fotoperíodo como horas de luz do dia, isso não é totalmente correto.

Por exemplo, se você acender suas luzes de cultivo por apenas cinco minutos no meio do ciclo escuro de 12 horas, suas plantas permanecerão vegetativas.

Quão legal é isso? Cannabis, poinsétias e crisântemos são culturas de “dia curto”. Isso significa que em dias curtos (ou noites longas) a planta se tornará reprodutiva.

A seguir, você vê uma típica programação para o cultivo de cannabis indoor.

A propagação vegetativa leva cerca de duas semanas. O ciclo vegetativo pode ser algo entre 1 e 10 semanas (tudo dependendo do tamanho que você deseja que sua planta tenha, normalmente são três semanas) e a floração pode durar 8-12 semanas, dependendo da cultivar.

Isso funciona perfeitamente bem e é facilmente alcançável para várias colheitas por ano. Uma vez que você leve seu cultivo para o exterior (outdoor), as coisas ficam um pouco mais complicadas.

Cronogramas de colheita de cannabis

Ao cultivar ao ar livre, a duração natural do dia nunca se estende por mais de 18 horas. A maioria das áreas fica com menos de 12 horas por dia nos meses de inverno.

Para os primeiros estados americanos a adotar o cultivo de cannabis (Washington, Colorado, Oregon), o cultivo começou nessas regiões.

2020 foi o primeiro ano (na história moderna) em que o cânhamo foi cultivado comercialmente abaixo do paralelo 30º — que inclui o Havaí e partes do sul do Texas, Louisiana e Flórida.

As cultivares criadas para produzir em climas do norte com longos dias de verão nem sempre se adaptaram bem quando cultivadas em latitudes do sul com fotoperíodos muito diferentes.

Para visualizar a diferença de duração do dia, vamos considerar duas regiões muito diferentes dos EUA — Lansing, Michigan, e Baton Rouge, Louisiana.

Os dias de verão em Lansing podem ter mais de duas horas a mais do que os dias de verão em Baton Rouge. Nenhum dos locais fica abaixo de 12 horas de luz solar entre meados de março e meados de setembro.

Isso significa que a cannabis não florescerá ao ar livre nesses locais? Não.

Usando o fotoperíodo crítico usual para variedades de cânhamo comerciais (14 horas e 10 minutos), Lansing tem aproximadamente sete semanas com horas de luz do dia suficientes para a planta permanecer vegetativa.

Por outro lado, em Baton Rouge, as plantas poderiam permanecer vegetativas por uma a duas semanas. Embora o agricultor esteja pagando a mesma quantia por semente ou muda, o rendimento será devastadoramente diferente.

Variedades são críticas

Se conhecermos nossas variedades mais intimamente, podemos ser adequados para o sucesso.

Isso torna crucial para os produtores de cannabis ao ar livre escolherem a variedade certa.

Algumas variedades toleram dias de verão mais curtos, dando ao agricultor um ciclo vegetativo mais longo.

No entanto, o agricultor deve estar ciente de que a substituição dessa mesma planta em uma região altera significativamente a data de início da floração mais tarde — ou seja, uma colheita posterior.

Para as regiões do norte dos EUA, isso pode significar uma geada antes que as flores amadureçam.

Um mapa produzido no ano passado por criadores (breeders) de plantas e pela Universidade do Tennessee oferece aos agricultores estadunidenses um guia para entender a fotoperiodicidade e os perigos da geada para o plantio e a colheita.

Agora entendemos por que certas variedades têm um desempenho diferente em latitudes variáveis. Mas como podemos manipular isso de uma forma econômica?

Não é preciso muita luz para manter as plantas vegetativas.

Por exemplo, a poinsétia e outras culturas de dia curto requerem muito pouca luz.

Esta luz pode ser aplicada no início ou no final da luz natural do dia ou no meio da noite.

A interrupção noturna é a prática de fornecer iluminação de baixa intensidade para as plantas durante o meio da noite.

Ao interromper o período escuro, a planta vai pensar que é um longo dia. Isso geralmente é feito no meio da noite (ou seja, das 22h às 2h). Isso pode ser alcançado facilmente com holofotes em vários lados do campo.

É importante lembrar que as luzes precisam ser aplicadas de vários lados. Isso por que o lado que não recebe luz direta ainda pode florescer.

Luzes de corda também são uma boa opção — embora mais caras em um cenário de campo por causa da contagem de luz necessária mais a necessidade de uma estrutura para segurar as luzes. Os LEDs são uma ótima opção para economia de energia elétrica.

Semiautoflorescentes

Embora “autoflorescente” seja enganoso em termos de horticultura, na indústria da cannabis a terminologia funciona. Essas plantas não são autoflorescentes (também conhecidas como de dia neutro).

Em vez disso, elas são fotoperiódicas com um tempo de resposta de floração superior a 17 horas de luz por dia.

A princípio, pode parecer uma variedade que só pode ser cultivada em ambientes internos.

Na verdade, entender como podemos manipular essas plantas com luz fornece uma maneira totalmente nova de cultivo, com potencial para muitas safras por temporada.

Nesta foto de um terreno de meio acre na Carolina do Sul com iluminação suplementar, você notará uma luz LED de 300 watts em um poste alinhado ao campo.

Considerando que essas variedades normalmente florescem imediatamente após o transplante, por causa da iluminação fotoperiódica, essas plantas foram cultivadas até um tamanho que produzirá um rendimento lucrativo.

O que mais isso significa? Em climas mais quentes, podemos executar vários ciclos por ano sem a necessidade de uma estufa ou tecido para escurecimento.

Além disso, como as verdadeiras variedades “autoflorescentes” (que estão disponíveis apenas via semente) ainda estão sendo otimizadas por meio do melhoramento genético, essa é uma ótima maneira de otimizar clones e ter uma colheita lucrativa com consistência e tamanho.

*Allison Justice é fundadora e CEO da The Hemp Mine, uma empresa de cânhamo verticalmente integrada com sede na Carolina do Sul, que cultiva 30 acres e fornece mudas de cânhamo produzidas internamente nos EUA.

Leia também: Você sabe as principais diferenças entre fumar e comer maconha?

Foto de capa: Life Gardens / Cannabis Business Times.

Você sabe as principais diferenças entre fumar e comer maconha?

Três fatores elementares influenciam nos efeitos da combustão e da ingestão de maconha: a metabolização, a velocidade e a duração da onda. Entenda mais no artigo da chef e professora Lilica, especialista em culinária com cannabis

Há alguns dias li, uma frase de autor anônimo que me fez sorrir: “A cannabis está para as plantas assim como o cachorro está para os animais”. Quem já me conhece sabe que eu amo maconha e amo cachorros (tanto que tenho cinco). Essa analogia deixa bem evidente a relação íntima e milenar que a humanidade desenvolveu com a nossa amada planta.

Existem indícios de que já consumíamos maconha há pelo menos 12 mil anos, na Ásia e Oriente. Ela era usada tanto para fins medicinais quanto sociais, além de cerimônias religiosas.

A utilização da cannabis em forma de alimento foi rapidamente popularizada naquela região. Tanto que, ainda hoje, é bastante comum encontrar por toda a Índia pequenas lojas onde é possível tomar um saboroso Bhang Lassi, bebida com leite infusionada com cannabis e várias especiarias.

Aqui no Ocidente foram nos baseados, blunts, pipes, bongs e vaporizadores que o uso da maconha mais se disseminou, talvez pela facilidade em consumir desta forma e, muito provavelmente, pelo caráter marginalizado que se deu à maconha desde o começo da campanha proibicionista. Afinal de contas, sabemos que aqui no Brasil não existem estabelecimentos legais onde se pode usar maconha.

Mas, com a regulamentação e legalização em diversos países, o consumo dos comestíveis cannábicos está em amplo crescimento. Diversas empresas estão fazendo grandes investimentos nessa indústria e, ao visitar lugares onde esse mercado já é uma realidade, é possível encontrar uma gama enorme de comestíveis com maconha.

E aí talvez você se pergunte por que isso está rolando, já que tem muita gente que fuma e nunca nem sequer pensou em comer maconha. E é claro que existem respostas para esta pergunta. A grande verdade é que a culinária cannábica é uma excelente forma de consumir maconha, reduzindo os danos gerados pela combustão e inalação da fumaça. Sendo assim, a forma de consumo ingerida é mais atraente para usuários que não podem ou não gostam de fumar, além de ser mais discreta e fácil de consumir, o que acaba normalizando o uso e desmistificando diversos preconceitos.

Já vi muitos casos de pessoas que nunca tinham chegado perto de maconha na vida, tinham uma ideia totalmente errada, mas se permitiram experimentar comestíveis e mudaram a cabeça. Mas, você sabe quais as principais diferenças entre inalar e ingerir a cannabis na forma de alimentos?

Então bora lá, existem três fatores elementares: a metabolização, a velocidade e a duração da onda.

Em primeiro lugar, quando fumamos um baseado, os canabinoides são metabolizados pelo nosso pulmão. Eles atravessam os alvéolos pulmonares, entram na circulação e atingem o cérebro em minutos. Mas quando ingerimos o famoso brisadeiro, por exemplo, a metabolização dos canabinoides é feita pelo fígado. Ou seja, antes de absorvê-los, nós precisamos fazer o processo digestivo, para que só depois eles alcancem o nosso fígado.

Aí já fica evidente a segunda diferença entre comer e fumar, que é a velocidade em que sentimos os efeitos. Quando nós damos aquele primeiro tapa no beck, a onda aparece em minutos, bem rapidinho. Mas quando comemos o brisadeiro, os primeiros efeitos podem demorar, no mínimo, trinta minutos para aparecer. Em alguns casos, a pessoa só começa a sentir os efeitos depois de duas horas, duas horas e meia. É lógico que isso varia de pessoa pra pessoa, depende do metabolismo, dosagem, da tolerância e até mesmo de como a pessoa se alimentou naquele dia.

Nesse quesito, até parece que os comestíveis ficam em desvantagem, né? Mas antes do veredito final, devemos considerar a terceira grande diferença, que é a duração da onda. Quando fumamos maconha, os efeitos duram por volta de 1 hora e meia. Mas, ao nos alimentarmos com maconha, os efeitos podem durar de 6 a 12 horas. E existe uma explicação científica pra isso.

O THC (delta-9-THC) é uma molécula formada por 9 partículas. Ao ser metabolizado pelo nosso fígado, a estrutura molecular do THC recebe mais uma molécula de oxigênio e uma de hidrogênio. Isso leva a criação do 11-Hidroxi-THC, um metabólito muito ativo em termos farmacológicos, conhecido por seus efeitos sedativos e psicoativos.

Ou seja, o que acontece é que o THC acaba se transformando em uma molécula maior, o que faz com que o nosso metabolismo demore mais para absorver, processar e eliminar. Isso acaba sendo uma das grandes vantagens de consumir maconha em forma de alimentos, principalmente nos casos medicinais, em que a pessoa precisa de um efeito prolongado dos benefícios dos canabinoides.

E com certeza também agrada às maconheiras e maconheiros mais antigos que nem eu, que querem ter brisas mais intensas e duradouras, mas sofrem com a resistência. Então, agora que você já sabe as diferenças e benefícios dessa forma de consumo, que tal se aventurar na cozinha? No meu Instagram e no meu canal do Youtube existem várias dicas, receitas e informações a respeito da culinária cannábica — e no meu curso on-line explico tudo isso e mais.

Bora colocar a maconha no prato?

Imagem de capa: Lilica 420.

Ceará: municípios recebem projeto para tratar de política sobre drogas

Projeto do governo cearense pretende melhorar o acesso de usuários de álcool e outras drogas aos serviços ofertados pelo Estado. Informações da Ascom SPS

Via Smoke Buddies

Os municípios de Ibaretama, Banabuiú, Ocara e Alto Santo recebem, nos dias 4, 5, 11 e 31 de agosto, o projeto “Prevenção e Cuidado no CE”, uma ação de política sobre drogas, desenvolvido pela Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS) do Estado do Ceará. O projeto promoverá workshops, fóruns de debates e atendimentos itinerantes pelo Centro de Referência sobre Drogas (CRD), com ações de prevenção, orientação, apoio e cuidados para pessoas com problemas pelo uso de álcool e outras drogas, e em situação de vulnerabilidade social.

Coordenado pela Secretaria Executiva de Políticas sobre Drogas do Ceará, o projeto pretende melhorar o acesso de usuários de álcool e outras drogas aos serviços ofertados pelo Estado, estimular a formação de profissionais, estudantes e pessoas interessadas com a temática e fortalecer a integração com os municípios.

A secretária-executiva de Políticas sobre Drogas, Rachel Marques, destaca o significado do projeto às comunidades do Interior cearense. “O uso recorrente de álcool e demais drogas é uma realidade em várias cidades e nos preocupa muito. A proposta é, além de ofertar serviços, capacitar gestores públicos e pessoas que atuam com a temática e promover a criação, reativação e fortalecimento dos conselhos municipais de políticas sobre drogas, para atuarmos juntos nessa luta. Precisamos olhar esse problema para além dos centros urbanos”, defende.

O projeto “Prevenção e Cuidado no CE” será desenvolvido nesta quarta-feira (4), em Ibaretama, e na quinta (5), em Banabuiú. No dia 11 as ações chegam a Ocara, e no dia 31 a Alto Santo. A programação é semelhante nos quatro municípios. Pela manhã, a partir das 8h, será promovido o workshop Política sobre Drogas, voltado para profissionais das secretarias municipais e demais atores sociais interessados no tema.

À tarde, às 14h, prefeitos, secretários e técnicos municipais se reúnem no Fórum Social de Políticas sobre Drogas, com representantes de classe e da juventude, iniciativa privada, empreendedores e trabalhadores. Ao longo do dia, a equipe multiprofissional do CRD percorre pontos da cidade, divulgando serviços e realizando atendimentos ao público.

Veja também: Direito, cultivo, cozinha: cursos oferecem conhecimento especializado em cannabis

Imagem em destaque: Mateus Dantas | Prefeitura de Fortaleza.